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A Bagaceira de José Américo, marco impulsionador da Geração de 30

Esse romance contribuiu para a apresentação de um Nordeste muito pouco conhecido pelos brasileiros, um Nordeste que estava em vias de transformação, que a “modernização” começava a dar sinais de aparecimento, Nordeste do abuso por parte dos Senhores de Engenho, Nordeste dos abusos políticos, Nordeste que para além da seca, é também um Nordeste de luta pela vida.

segunda-feira 5 de setembro| Edição do dia

A Bagaceira, do paraibano José Américo de Almeida, é o livro inaugural do movimento chamado Geração de 30, ou segunda geração modernista. Os jovens de 1922 tinham a intenção de dar nova forma as letras se aproximando do popular e rejeitando a idealização da literatura acadêmica; para mais os modernistas de 1930 (começando em 1928 com a Bagaceira) além de aprimorar essa nova forma trouxeram a cena as contradições de classe.

A Bagaceira, como as demais obras da Geração de 30, não se reduzem a uma abordagem regionalista dos problemas tipicamente nordestinos sem qualidade estética, mas através do esforço de recuperação da cultura e realidade nordestina buscava mostrar o “verdadeiro” Brasil.

Através dessa obra, que imprimiu um estilo, entramos em contato com a dura realidade das secas e das retiradas, como também das diferenças culturais entre diferentes espaços dentro do próprio Nordeste, no caso entre o Sertão e o Brejo paraibanos, com o primeiro sendo marcado pela seca e evasão, enquanto que o outro por se tratar de área úmida se torna caminho de passagem dos retirantes, e a partir daí se desenrola a história que temos a seguir.

Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição do cemitério antigo – esqueletos radioativos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres […] Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas em vez de ser levado por elas […] Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos do seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fardos […] Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais”.

Dagoberto Marçal era o dono do Engenho Marzagão, apesar da relutância acabou por aceitar um grupo de retirante como trabalhadores em suas terras, “Suspeitou que se tratava de gente de certa condição, incapaz de uma atividade útil […] De fato, suas maneiras inculcavam a mediania despenhada no turbilhão da seca. Um ar mais de decadência que de humildade”, no entanto os aceitei, a moça que estava no grupo, Soledade, de alguma forma chamou sua atenção. Além de Soledade, seu pai, Valentim Pedreira, e Pirunga seu afilhado e braço direito, foram aceitos na condição de moradores.

A relação que se dava entre os trabalhadores da Bagaceira e os sertanejos nem sempre era fácil, vinham de lógicas de trabalhos diferentes, os “Párias da bagaceira, vítimas de uma emperrada organização do trabalho e de uma dependência que os desumanizava, eram os mais insensíveis ao martírio das retiradas […] Os sertanejos eram mal-vistos nos brejos. E o nome brejeiro cruelmente pejorativo [entre os sertanejos] […] Essa divergência criava grupos sociais que acarretavam os conflitos de sentimentos”.

Lúcio é o filho e futuro herdeiro de Dagoberto, que vive em completo ócio no Engenho durante seu período de férias dos estudos, ele tem uma relação bem distanciada com o pai. Vivia metido numa rede que “parada, é feita para dormir; mas, aos embalos, a voar, é feita para sonhar”. Lúcio “Estava farto de ainda não ter vivido”, “Na solidão rural só abria a boca para bocejar […] Ele profanava com essa tristeza ociosa a alegria gritante da natureza tropical”. “Lúcio insistia pela introdução de técnicas agrícolas. Com os fumos de noções práticas, adquiridas no vale do Paraíba e em usinas de Pernambuco, intentava aplicar outros processos de aproveitamento […] Essas intromissões na economia rural o incompatibilizavam, cada vez mais, com o gênio do pai”.

O regime de trabalho no corte da cana não era nada fácil, Valentim observou “que todos [da Bagaceira] trabalhavam descalços […] Já não tinham plantas dos pés, porém, cascos endurecidos”. Sempre trabalhando, eram resignados que o trabalho de “cada dia não era para ganhar a vida: era, apenas, para não perdê-la”. Há uma passagem que me marcou profundamente durante a leitura, é quando Lúcio pergunta a um trabalhador – João Troçulho – qual era o seu maior desejo na vida, a resposta é: “— Comer até matar a vontade”, simplesmente isso, saciar completamente sua fome.

Em relação a seca, “Valentim Pedreira contou uma história que tem sido reproduzida, nos ciclos mortais da seca, por milhares de bocas famintas […] Ninguém pergunta ao retirante donde vem nem para onde vai. É um homem que foge do seu destino. Corre do fogo para a lama”. Durante a seca “a gente também seca por dentro. Seca, fica tudo mirrado – o espírito, a coragem…”. O sertão se desfaz num “Um incêndio estranho que ardia de cima para baixo. Nuvens vermelhas como chamas que voassem. Uma ironia de ouro sobre o azul […] Durante um ano a fio, uma gota d’água que fosse não refrescava a queimadura dos campos”. “O que tem de acontecer tem muita força [...] – A gente sai por esse mundão sem saber pra onde vai. Quanto mais anda, menos quer chegar. Porque, se fica, está de muda e tem pena de ficar. E, enquanto anda, pensa que vai voltar”.

No que se refere a essa relação brejeiros e sertanejos “nem os cachorros se davam”. Essa diferença também se expressava por questões étnicas, os sertanejos (brancos) não se misturam com os brejeiros (negros e mulatos), além disso o aspecto da moral sertaneja tem muita força no comportamento geral desse grupo.

Há um momento do livro onde está acontecendo uma forma de celebração entre os trabalhadores, muito coco, ciranda, cachaça. No entanto devido a desavença entre Dagoberto e o chefe local, “os oposicionistas tinham seus domínios expostos às represálias policiais […] – Mete o facão nessa cambada! – ordenou a autoridade” e assim se fez uma confusão generalizada “Era o governo. O governo era essa afirmação de arbitrariedade” “Para eles o governo era, apenas, essa noção de violência: o espaldeiramento, a prisão ilegal, o despique partidário… Não o conheciam por nenhuma manifestação tutelar”.

É chegado o momento de falar sobre o romance que parecia se formar entre Lúcio e Soledade. Sem deixar mencionar que Soledade em muito se parecia com a Mãe de Lúcio, Mulher de Dagoberto morta no parto. Todos pareciam querer afastar os jovens enamorados, o pai dele e também Pirunga, que nutria sentimentos por Soledade.

Lúcio ainda era muito menino para fazer as coisas acontecerem, ainda mais com todos contra. Terminado seu período de férias, Lúcio volta aos estudos, e desde sua partida havia algo de diferente em Soledade, o que no Sertão pode ser considerado um desmantelo. Dada a situação, e a moral sertaneja seria preciso limpar a honra da menina com sangue. Sangue daquele que a desviou do caminho, que tirou sua pureza, por assim dizer. Foi assim que Manuel Broca, capataz do Engenho, acabou sendo emboscado e morto por Pirunga, Valentim assumiu a responsabilidade e foi preso. Enquanto isso a chuva chegara ao Sertão, e eles poderiam se ter se visto livres de tudo aquilo.

Lúcio ao voltar se depara com toda aquela situação, piorando ainda mais sua já difícil relação com seu pai. Foi Dagoberto quem deflorou e desonrou a jovem Soledade, “prostituindo”, assim, a prima de Lúcio, a quem ele desejava tomar como noiva. Nesse momento fica claro que a mulher morta de Dagoberto era irmã de Valentim, e a semelhança física da menina foi determinante na sua aceitação e dos demais retirantes no Marzagão.
Dessa forma, Lúcio em “um gesto de renúncia: — Eu matei, nascendo, minha mãe. Foi por minha causa que o senhor perdeu sua mulher; agora, não seja também por mim que perca sua amante. Não diga mais que nem bonita é… É bonita e é sua”, abriu mão dos seus interesses por Soledade.

Valentim ao descobriu que o feitor era “inocente”, fez Pirunga jurar que não mataria o senhor do Engenho. Este que para não sair de perto de Soledade oferece seus serviços a Dagoberto, que os leva para uma propriedade que possuía no Sertão. Em diversos momentos Pirunga salva a vida do seu rival, no entanto a falta de jeito do Senhor do Engenho no Sertão, o põe em situações cada vez mais arriscadas, em um momento acarretando sua morte, quando nem Pirunga o consegue salvar.

Soledade sentindo a dor da “viuvez” precoce vai tomar satisfação com Pirunga, eles acabam brigando seriamente e ele acaba matando ela, ou ao menos acredita que sim. Valentim “Em sua natureza primitiva o instinto de honra e o preconceito da vingança privada suplantava o próprio amor paterno”. E prontamente perdoou Pirunga, e o agradeceu por tê-lo vingado.

Lúcio, na condição de advogado, defendeu Valentim das acusações, atribuindo a culpa de seus atos a falta de solidariedade da raça, e discorrendo sobre uma série de questões relacionadas a falha da justiça, “Valentim foi absolvido por perturbação de sentidos e de inteligência dos jurados”.

Lúcio acabou por se casar com uma filha de usineiro, e seguiu sua vida, agora como Dono do Engenho, “Seu segredo de otimismo era viver dentro de sua esfera. Situava o ideal da vida no Marzagão. Era o homem mais feliz da terra, sem indagar se além desses limites havia uma ventura maior. Dizia com o orgulho de um pequeno deus: Eu criei o meu mundo. Não procurava os grandes prazeres que solicitam prazeres maiores até chegarem às desilusões arrependidas”.

Os trabalhadores “Já não pareciam condenados a trabalhos forçados: assimilavam o interesse da produção. E o senhor de engenho premiava-lhes as iniciativas adquirindo-lhes os produtos a bom preço […] As leis de higiene duplicavam o esforço persistente. Essa faina não representava, apenas, a satisfação das necessidades imediatas: era uma medida de previdência”. Há uma clara apologia em favor do novo, em detrimento do antigo. Esse novo na verdade constitui a inserção das relações capitalistas de trabalho no campo, o resultado já é bem conhecido.

No ano de 1915 “reproduzia os quadros lastimosos da seca. Eram os mesmos azares do êxodo. A mesma debandada patética. Lares desmantelados; os sertanejos desarraigados do seu sedentarismo […] Lúcio sentia gritar-lhe no sangue a solidariedade instintiva da raça […] E organizou a assistência aos mais necessitados”.

Abeirou-se, certa vez , uma retirante com o ar de mistério. Trazia um rapazinho pela mão . E recusou a esmola” desejando falar com o dono do Engenho, e disse “— Eu por mim nada quero, mas este menino está morrendo de fome...” Pirunga se espantou e reconheceu Soledade pelos cabelos brancos, como a cabeça polvilhada “— Eu fazia ela morta porque não dava acordo de si... Ocorreu-lhe a circunstância da praga ouvida à última hora”.

Soledade representava todos os gravames da seca. Não conservara, sequer, aquele acento de beleza murcha da primeira aparição romântica. As olheiras funéreas alastravam-se como a máscara violácea de todo o rosto. Encrespavas e a pele enegrecida nas longas ossaturas. E trazia as faces tão encovadas que parecia ter três bocas.

Para Lúcio “Arrepender-se é punir-se a si mesmo. Ele chamou o rapazinho a si e tomou-lhe o rosto entre as mãos. Beijou-lhe a testa suja e requeimada. Depois, apresentou-o à esposa: — Este é meu irmão. Mostrou ainda Soledade: — Essa é... minha prima. E, a custo, com um grande esforço sobre si: — É a mãe de meu irmão...”.

Essa obra é um marco no modernismo brasileiro, e tão logo foi publicada fez sucesso, e em seguida precisou vir acompanhada de um glossário para facilitar a compreensão dos muitos termos regionais empregados. Além da apropriação do elemento popular na literatura brasileira, traz a luz a vida e sacrifícios das classes subalternas, despossuídas do Nordeste brasileiro. Esse romance contribuiu para a apresentação de um Nordeste muito pouco conhecido pelos brasileiros, um Nordeste que estava em vias de transformação, que a “modernização” começava a dar sinais de aparecimento, Nordeste do abuso por parte dos Senhores de Engenho, Nordeste dos abusos políticos, Nordeste que para além da seca, é também um Nordeste de luta pela vida.




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