DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES

8M: As mulheres negras na linha de frente contra Bolsonaro e a reformas, pelo direito ao aborto e por justiça por Marielle

Carolina Cacau

Professora da rede estadual em Nova Iguaçu-RJ e dirigente do Quilombo Vermelho - Luta Negra Anticapitalista e MRT

sábado 7 de março| Edição do dia

Diante da ofensiva neoliberal, que vem aprofundando os ataques há nível mundial, que já dura 11 anos, com diversos ataques a classe trabalhadora em diversos países, vemos no Brasil um aprofundamento da crise à partir do golpe institucional e com as eleições que colocaram Bolsonaro, claro inimigo das mulheres e dos setores oprimidos, que vem avançado com os ataques como a aprovação da reforma da previdência que acarretará mais precarização e fará com que grande parte dos trabalhadores não consiga se aposentar.

Neste cenário de grande ataque a classe trabalhadora e aos setores oprimidos, as mulheres negras são as mais afetadas. Num país, como o Brasil, onde quase metade da classe trabalhadora é mulher e dessas, 20 milhões são negras, em que 75% dos mais pobres são negros, sendo também os mais desempregados, em que 48,3% dos negros sofrem com a informalidade e que as taxas de homicídio de mulheres negras são 71% maiores que as de mulheres brancas, a relação entre a exploração, o racismo e o patriarcado é indissociável.

São as mulheres negras, em sua maioria, que estão nos piores postos de trabalho, principalmente terceirizados, onde uma mulher negra chega a ganhar até 60% a menos que um homem branco. São as que mais morrem por abortos clandestinos, mas também tem seu direito a maternidade negado, por falta de atendimentos de saúde de qualidade, creche públicas e tem seus filhos brutalmente assassinados pelas mãos da polícia em todo o país.

No Rio de Janeiro, onde a crise capitalista mostra sua cara mais nefasta, os ataques não vêm somente de Bolsonaro mais se aprofundam com a dobradinha Witzel e Crivella que com todo o racismo e misoginia da extrema direita fazem recair para as mulheres negras uma vida cada vez mais precária. Seja pelas taxas de desemprego, que afetam diretamente as condições de vida, que tem as mulheres como principais provedoras de suas famílias, das constantes situações de violência que as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio que tiveram aumento de 300%, ou pelas mãos da polícia que somente no ano de 2019 mataram mais de 1.500 nas favelas e periferias cariocas, ou pela falta de condições materiais da vida, com Crivella cortando de serviços básicos como a saúde.

Com tanta precarização da vida, não à toa que esse seja o estado com uma das polícias mais assassinas. A polícia está habituada a deixar um rastro de sangue dos negros por onde passam, como forma de reprimir a indignação do povo carioca diante de tantos ataque. Essa aprofundamento do autoritarismo do Estado, tem a sua maior representação com o assassinato de Marielle Franco, vereadora negra eleita com mais de 46 mil votos, expressando o peso da representação política e das pautas contra a violência polícia e criminalização da favela, pautas levantadas com muito peso por ela. A morte de Marielle, é a expressão de uma das profundas feridas abertas do golpe institucional, que no mês que completam 2 anos de seu assassinato segue sem nenhuma resposta sobre quem mandou matá-la, mesmo com diversas ligações da família Bolsonaro com esse crime.

Em meio a uma guerra de versões que envolve ações completamente suspeitas, como os próprios acusados aparecerem com supostas provas, é preciso retomar essa bandeira com toda a centralidade. Por isso, nós do Esquerda Diário, estamos impulsionando junto a entidades estudantis a campanha #JustiçaPorMarielle.

É necessário que a investigação do Estado seja acompanhada e fiscalizada rigorosamente por uma investigação que independente, composta por defensores notórios dos direitos humanos, sindicatos, familiares, parlamentares do PSOL, movimentos sociais e todos aqueles que, ao contrário da polícia e do judiciário, não tem rabo preso com os capitalistas, com milícias e nem nenhum interesse em deixar impune alguém que matou uma parlamentar negra e de esquerda.

A votação expressiva de Marielle e outras mulheres negras do PSOL representa também uma mudança na consciência das mulheres, em especial negras, que se expressou nas urnas ainda que com limites, do ponto de vista de como fortalecem a luta pela emancipação de todos as mulheres e todos os negros, que só se darão com o questionamento do próprio capitalismo. No entanto, podemos dizer que sem sombra de dúvidas estamos diante de um fenômeno inteiramente novo, de mulheres negras que não apenas confiaram seu voto em outra mulher reivindicando sua luta antirracista, contra o patriarcado, o machismo, a lgbtfobia, mas também de mulheres que encaram de forma totalmente diferente e progressista sua identidade negra. São milhares de jovens trabalhadoras que desafiam a sociedade racista e às vezes seus patrões colocando tranças e assumindo seus cabelos crespos e black power; são mulheres que pela primeira vez na família diante de gerações caladas frente à opressão do racismo e machismo, se enfrentam de cabeça erguida contra os assédios e preconceitos sofridos que até então eram obrigadas a aceita-las e entende-las como “normais” e inquestionáveis. São mulheres negras que à medida que tomam consciência de sua identidade e cultura também vão elegendo seus inimigos, como Bolsonaro e Witzel que não tem nada a oferecer a vida dessas mulheres além de ataques aos seus direitos e a precarização de suas vidas.

Contudo, toda essa força e potência precisa não apenas ser canalizado num fenômeno eleitoral, mas se expressar nas ruas, pelos métodos da classe trabalhadora e com a luta de classes que são os instrumentos necessários para nos enfrentarmos com esses ataques. Por que sabemos que em um estado estruturalmente racista como o estado brasileiro, as demandas das mulheres, e, principalmente das mulheres negras, não serão resolvidas nos limites do parlamento. Por isso esse fenômeno progressista deve se expressar nas ruas, na luta de cada mulher negra e deve ser fonte de apoio para poder levar nossas demandas à frente, principalmente após a escalada autoritária de Bolsonaro que com apoio dos militares na convocação da manifestação do dia 15 de março, exigiu até mesmo o fechamento do Congresso com o intuito de avançar ainda mais contra os direitos da classe trabalhadora, das mulheres, dos negros, dos lgbts e da juventude o que só reforça a necessidade de nos organizarmos.

Essa força enorme que as mulheres negras sempre demonstraram em vários momentos da história da luta de classes, seja na revolução haitiana, na luta contra a escravidão no Brasil e a precarização da vida, nos EUA, no enfrentamento ao saque Imperialista nos países africanos, na luta contra o apartheid na África do Sul, e hoje como parte do fenômeno internacional de mulheres, precisa estar a serviço de construir a luta nas ruas, à partir de cada local de trabalho e estudo para colocar de pé uma forte mobilização que se enfrente com Bolsonaro e a extrema direita que vem implementando seu plano de ajustes. Por isso, fazemos um chamado para estarmos presentes nos atos do 8M, no dia 14 por Justiça a Marielle que é o caminho para exigir do Estado que investigue e puna os criminosos responsáveis pelo seu assassinato e no dia 18 de março, não de maneira rotineira, mas com o objetivo de fortalecer uma luta que possa de fato vencer Bolsonaro e a extrema direita que querem descarregar nas costas, dos trabalhadores, em especial das mulheres negras os ataques. Lutando inclusive por um programa de combate à precarização e à exploração das mulheres negras como a igualdade salarial entre negros e brancos, homens e mulheres, efetivação dos terceirizados sem concurso público, plano de moradias, legalização do aborto, o fim das polícias que assassinam nosso povo e o fim da perseguição às religiões e as culturas africanas.




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