Teoria

QUARTA INTERNACIONAL

80 anos da fundação da Quarta Internacional

Em 3 de setembro de 1938, Leon Trotsky e seus seguidores fundaram a IV Internacional. Publicamos parte da apresentação do livro "O Programa de Transição e a Fundação da IV Internacional" das Edições IPS-CEIP lançado para o 70º aniversário em sua homenagem.

segunda-feira 3 de setembro| Edição do dia

Tradução: Jéssica Antunes

A Conferência, realizada em Paris em 3 de setembro de 1938 (1), que devido às condições objetivas em que se realizou, só pôde se sustentar como plenária por um dia, teve como pontos principais a aprovação do Programa de Transição e a fundação da IV Internacional (2).

Vinte e seis delegados representaram 11 das 29 seções afiliadas (de acordo com o relatório do Secretariado Internacional). O resto das delegações não pôde viajar devido a vários problemas, inclusive econômicos. Foi realizada sob condições estritas de segurança. No entanto, o próprio organizador, Klement, foi assassinado pouco antes de sua realização, se perdendo grande parte dos documentos que levava consigo. Nem a infiltração de um membro da GPU (3) pôde ser evitada. Erwin Wolf e Leon Sedov, filho de Trotsky, que realizavam tarefas destacadas, também foram assassinados pela GPU pouco antes da realização da Conferência. Trotsky, claro, não pôde comparecer confinado como estava em seu exílio mexicano, mas se dirigiu a Conferência desde lá (NdA). Essas foram parte das "vicissitudes" que Trotsky e sua corrente, desde a formação da Oposição de Esquerda na URSS vinha sofrendo (assassinato, campos de concentração, processos de Moscou, intrigas, etc., nas mãos dos estalinistas, fascistas e "democracias" imperialistas).

A agenda da Conferência foi muito extensa (Espanha, a próxima guerra, China-Japão, URSS, França, colônias, América Latina (4), solidariedade internacional frente à perseguição, problemas das seções e estatutos). No entanto, devido à brevidade da reunião, nem todos os documentos ou pontos puderam ser discutidos ou aprovados.

Entre eles estavam documentos importantes, tais como a "Resolução sobre a luta de classes e da guerra no Extremo Oriente" Li Fu Jen (5) e "O papel global do imperialismo norte-americano" (6) Trotsky, que refletiam sobre a importância que tinham para a IV tanto a guerra sino-japonesa quanto o papel dos EUA na guerra por vir.

Por fim, a agenda de discussão se concentrou em: 1) questões sindicais, dos trabalhadores, controle dos trabalhadores; 2) situação na URSS; 3) guerra e situação internacional.

Quanto ao ponto 1) a discussão girou em torno do conteúdo dos comitês de fábrica e da participação dos revolucionários neles, com base em uma emenda proposta pela seção polonesa. No ponto 2) seguiu-se a discussão já refletida no artigo de Trotsky "É preciso expulsar os sovietes para a burocracia e a aristocracia" (7). A URSS era parte de inúmeras discussões internas. Craipeau, presente na Conferência, negava seu caráter de estado operário degenerado e foi contra defendê-lo como tal em caso de guerra e se pronunciava pelo "derrotismo revolucionário". A delegação norteamericana apresentou uma emenda que, de certa forma, também refletia que no SWP dos EUA, alguns líderes como Burnham defendiam posições semelhantes.

No ponto 3) centralmente se discutiu o parágrafo do programa onde Trotski faz a distinção entre o "patriotismo" das massas e o patriotismo burguês ou reformista, especialmente nas colonias ou quando aparece "misturado" com a ilusão de defender a democracia (mesmo em um país imperialista como nos EUA antes da guerra). Rousset, Boitel e Pablo negavam qualquer aspecto "progressista" no patriotismo das massas e pediam que esse termo fosse retirado do programa, mas essa proposta não foi adotada.

Os relatórios foram registrados por Naville (do Secretariado Internacional) e por um delegado norteamericano, mas estes não foram oficiais, nem revisados, nem aprovados. No entanto, são também os únicos registros restantes das discussões realizadas.

Revista latino-americana Clave, anunciando a fundação do IV

Movimento para a IV Internacional ou IV Internacional

A discussão dos estatutos foi especificamente a do seu primeiro ponto, isto é, se a Internacional deveria ser fundada ou não. Nenhuma das pessoas duvidou da necessidade de fundar uma nova Internacional, embora uma pequena minoria tenha questionado se era hora de "proclamá-la". As II e III Internacional haviam dado amplas evidências de terem se tornado agentes contra-revolucionárias a serviço da burguesia imperialista, ficando ainda mais claro por seu papel na Espanha e na França. Desde 1933, após a traição do PC e da Terceira Internacional na Alemanha, a Liga Comunista Internacional (como continuação da Oposição de Esquerda Internacional) vinha lutando pela formação da nova Internacional. Várias táticas em relação aos grupos centristas que romperam com os partidos reformistas haviam fracassado.

Oposição de esquerda na URSS 1928 no exílio siberiano

A tática do "entrismo" em vários partidos socialistas havia dado resultados relativamente bons, mas havia chegado ao fim. Partidos centristas, como o POUM espanhol, haviam mostrado seu fracasso total. A guerra estava se aproximando rapidamente, o que, num primeiro estágio, isolaria fortemente os revolucionários das massas. Para Trotsky, era necessária uma clara delimitação revolucionária. Apesar de não negar a possibilidade de continuar a manter relações com grupos ou indivíduos centristas (inclusive convidando-os para a Conferência), argumentou que essa relação tinha que ser desenvolvida a partir de uma definição clara dos contornos de uma organização que, a partir da compreensão comum do programa, formou uma organização centralizada e disciplinada. Ela permitiria centralizar os esforços e as lições teórico-práticas das experiências das seções nacionais. Centralização que, por sua vez, permitiria golpear com mais força relativizando sua força numérica.

Andres Nin, primeiro com a IV, depois fundador do POUM

Marcel Hic, trotskista francês

Mario Pedrosa, trotskista brasileiro

Alguns setores ou pessoas, próximas à IV e mesmo dentro dela, refletiam as pressões oportunistas ou ultra-esquerdistas das organizações centristas que vacilavam ou que se opunham à sua fundação, alguns argumentavam que era um momento de retrocesso e as Internacionais só podiam ser fundadas como produto de um ascenso; outros, que as análises ou o programa não foram suficientemente desenvolvidos.

J. Cannon e F. Morrow dos EUA

A greve dos caminhoneiros que lideraram o SWP norte-americano

Consciente da debilidade da organização, mas convencido de sua continuidade e vitória futura, Trotsky lutou para que a Conferência se pronunciasse pela fundação e deixasse de lado os céticos. Sua confiança estava na perspectiva revolucionária que a guerra abriria em muitos países e que a mesma situação iria forjar os quadros e a organização necessária para levar à vitória as revoluções proletárias que se avizinhavam: "Os céticos perguntam: ’Mas chegou a hora de criar uma nova internacional? É impossível, dizem eles, criar artificialmente uma internacional. Ela apenas pode surguir de grandes eventos, etc. A única coisa que todas essas objeções mostram é que os céticos não servem para criar uma nova Internacional. Em geral, os céticos não são bons para nada. A Quarta Internacional já emergiu de grandes eventos; das maiores derrotas do proletariado na história. A causa dessas derrotas é a degeneração e a traição da velha direção. A luta de classes não tolera interrupções. A III Internacional, depois da II, morreu para a revolução. Viva a IV Internacional! "

Abraham Leon, trotskista assassinado em Auschwitz em 1944

Célula sul-africana da IV Internacional

"Mas os céticos não se calam: ’Mas chegou a hora de proclama-la?’ A IV Internacional -respondemos - não precisa ser "proclamada". Ela existe e luta. É débil? Sim, suas fileiras ainda não são numerosas, porque ela ainda é jovem. Até agora é, em sua maioria, composta por quadros dirigentes. Mas esses quadros são a única esperança de um futuro revolucionário. Por fora deles, não existe no planeta uma única corrente revolucionária realmente digna do nome. Se nossa internacional ainda é numericamente fraca, é forte pela sua doutrina, pela sua tradição, e pela têmpera incomparável de seus quadros dirigentes, que isso não seja visto hoje, não importa. Amanhã será mais evidente "(8).

70 anos após sua fundação [hoje 80] (NDT), a IV Internacional não existe como uma organização única ou centralizada desde alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Como Albamonte e Castillo apontam em entrevista(...) "durante o ’boom’, os trotskistas, é verdade que em condições muito difíceis, não foram capazes de reformular o marco estratégico que o Programa de Transição levantava e manter a continuidade revolucionária, apesar de terem defendido posições episodicamente corretas, o que chamamos de "fios de continuidade revolucionária". Pelo contrário, se adaptaram politicamente aos aparatos dominantes no movimento operário durante os anos de Yalta ou a qualquer direção episódica de um processo revolucionário, desintegrando a Quarta Internacional em um conjunto de tendências centristas, ou seja, oscilando entre reforma e revolução .

Por isso, quando as condições começaram a mudar com o ascenso revolucionário iniciado em 68, embora tenham atraído setores de vanguarda nunca alcançaram força suficiente para influenciar decisivamente nos acontecimentos nem retomaram um curso verdadeiramente revolucionário que permitisse avançar para uma verdadeira refundação da Quarta Internacional"(9). Desde então, o movimento operário sofreu novas derrotas e retrocessos, favorecido pela completa adaptação dos social-democratas e stalinistas à ofensiva capitalista. Muitos antigos líderes dos partidos comunistas são agora respeitáveis políticos burgueses e antigos altos funcionários da "nomenklatura" se tornaram magnatas nos países da antiga União Soviética. O Partido Comunista Chinês liderou a restauração capitalista neste país. Apesar da degeneração oportunista de grande parte das correntes que falam em seu nome, o trotskismo permanece para as classes dominantes o "espectro da revolução". "Trotskista" hoje continua sendo o nome pelo qual se define quem continua perseguindo o objetivo da revolução socialista. Entre eles, estamos nós. Nos últimos anos, o movimento operário iniciou um processo lento e tortuoso de recomposição subjetiva. A necessidade de ter um instrumento revolucionário internacional como o que Trotsky se propôs a construir com a fundação da IV Internacional há 70 anos é tão agudo agora quanto naquela época. Na luta para reconstruir-refundar a Quarta Internacional, o Partido Mundial da Revolução Socialista, nós que editamos esse livro esperamos que seja uma contribuição para as novas gerações de trabalhadores e jovem que retomam essas bandeiras de luta revolucionária.

Notas:

1. Inicialmente, foi planejado para ser realizado em outubro de 1937, mas foi adiado por falta de preparo.
2. Desde a adopção dos estatutos, a Segunda Conferência da Quarta Internacional (tendo em conta que eu Movimento para a Quarta Internacional foi realizada em 1936) foi renomeado fundador Congresso ou I Congresso da Quarta Internacional.
3. É Étienne, que mais tarde seria revelado como informante de Sedov para a GPU.
Embora, devido a certas suspeitas, eles o informaram sobre o ponto de encontro no último minuto, o que impediu que o dano fosse maior.
4. Rivera apresentou algumas teses sobre a América Latina publicadas na revista Clave .
5. Em O programa de Transição e a fundação do IV Interacional . Edições IPS-CEIP, Bs. As., 2008.
6. Idem.
7. Idem.
8. Idem.
9. Idem.

Este livro foi republicado como "Programa de Transição e da Fundação da Quarta Internacional" e você pode comprar na livraria do Instituto de Pensamento Socialista "Karl Marx" . [No anexo ao livro , há os principais documentos anteriores, as discussões durante e após a conferência.]




Tópicos relacionados

IV Internacional - 80 anos   /    IV Internacional   /    León Trotsky   /    História   /    Teoria

Comentários

Comentar