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ELEIÇÕES ESTADO ESPANHOL

26J: um resultado eleitoral que questiona o projeto do novo reformismo de Podemos

A formação do governo seguira sendo um problema e suas principais saídas possíveis não podem dar uma resposta às questões candentes do regime de 78. O fracasso da "ultrapassagem" que pregou Iglesias põe em questão a estratégia do Unidos Podemos.

segunda-feira 27 de junho de 2016| Edição do dia

(Direto do Estado espanhol)

A segunda parte do 20D foi concluído com um resultado que, de entrada, mantém a crise aberta de mais de meio ano. O regime de 78 e seu sistema tradicional de partidos seguem com sérias dificuldades para encontrar uma saída duradoura à crise que se abriu em 2011 e seus distintos problemas - começando pela questão catalã e remoçar a legitimidade do sistema de representação - mas simplesmente para poder formar um governo que consiga aprovar os ataques exigidos pela Troika.

Isto explica que a vitoria do PP, mesmo que tenha sido celebrada por Rajoy e seu séquito, não foi se dar como uma marcha triunfal. Nem por este partido, nem pelo atual governo, nem pelas instituições do regime de 78. É uma vitoria tática da direita. Os 600.000 votos extras são transferidos da direita "light" de Ciudadanos, que perdeu 400.000 votos.

O discurso do voto útil no campo conservador e a campanha do "medo ao populismo" deram à direita do PP 14 assentos a mais, mas deixam de ter maioria absoluta de 176 assentos parlamentares, ainda que se some os 32 de Rivera (líder de Ciudadanos, partido mais próximo ao PP). Inclusive seduzindo o PNV e os Canários, algo que não é nada fácil, chegariam apenas a um empate parlamentar de 175 deputados.

O PSOE resiste a sua queda livre que vinha desde de 2011. Perdem 125.000 votos e cinco cadeiras, mas Pedro Sanchez respira tranquilamente internamente. Esta derrota "digna" pode permitir que afaste as manobras de setor de Suzana Días para separá-lo da secretaria geral do PSOE.

Não obstante, a encruzilhada em que se encontra o líder socialista não é fácil. Ou uma nova tentativa de encabeçar "forças de mudança" (uma aliança tripartite com Ciudadanos e Unidos Podemos, que de principio ninguém aceitou), ou facilitar um governo do PP com a abstenção perante um pacto de Rajoy com Rivera, ou ainda abrir caminho a uma terceira eleição. Ou seja, o freio na sangria dos social-liberais tem que ser entendido com algo conjuntural. O PSOE não encontra uma via reparadora como um dos principais de 78, e todas as opções que se lhe mostram auguram uma maior queda.

A outra opção, como propõem Unidos Podemos, é ainda mais mágica. Estes propõem uma grande conciliação do "progresso’’ entre o Podemos, o PSOE e as forças nacionalistas catalãs e bascas. Nem o PSOE esta disposto a pactuar com os independentistas, nem estes, em especial ERC –nem mesmo CDC - assumiriam um acordo sem que fosse acompanhado do compromisso de realizar um referendo pela separação da Catalunha e do País Basco.

Assim, o impasse de dezembro se repete em junho, com um leve reajuste de deputados no flanco direito do Parlamento. Alguém pode crer que um governo assim seria estável para aplicar o pacote de ajuste em meio a uma crise social que está longe de se resolver e pode apontar para um regime ferido por corrupção e com um grave problema de território? Não esqueçamos que na Catalunha ganhou a formação "En Comú Podemos" tendo como bandeira o referendo, tendo 24,51% dos votos.

Por mais que o bipartidarismo siga a duras penas, com o apoio de Ciudadanos, não há nenhum projeto que seja capaz de dar uma resposta por cima à crise do Regime de 78 e poder evitar que o descontentamento nas ruas, contida pela burocracia sindical, pela ilusão eleitoral e pelo novo reformismo, volte à cena política.

A grande novidade desta segunda rodada eleitoral foram as grandes expectativas de que o Unidos Podemos de Pablo Iglesias ultrapassaria o PSOE. Se de fato se desse, tampouco estava garantido que isto solucionaria a crise de governabilidade, dada a negativa do PSOE em tornar Pablo Iglesias o novo presidente. Não obstante, algo inesperado e não previsto nas pesquisas ocorreu. Os rostos de Pablo Iglesias e de Iñigo Errejon diziam tudo.

O que ocorreu? Se formos analisar os números, o certo é que a coligação entre o Podemos e a Izquierda Unida foi a mais prejudicada pelo o aumento da abstenção. Apesar de terem votado 1.270.000 pessoas a menos do que no 20D, o bloco da direita (PP e Ciudadanos) não diminuiu, e sim aumentou 200.000 votos. O PSOE só perdeu 122.000 votos. Unidos Podemos, entretanto, obteve 5.033.907 de votos, frente aos 6.112.489 votos que somaram a lista de Iglesias e Garzón em dezembro. Ou seja, 1.078.582 votos a menos. O aumento da abstenção golpeou em cheio o novo reformismo.

A estratégia de Iglesias e Garzón atrás do 20D transcorreu em plena sintonia. A renúncia programática, a moderação do discurso e as propostas, tudo para chegar em um acordo com o PSOE, partido que antes era "a casta", terminando por concluir um acordo eleitoral que assumia o pagamento da dívida, não questionava a Coroa, nem a OTAN, muito menos falava do processo constituinte.

Uma estratégia que buscava superar o PSOE apresentando-se como a "nova socialdemocracia" e que realmente representava uma rápida desvalorização das ilusões despertadas em dezembro. Já não se tratava de "abrir os cadeados do Regime de 78", mas simplesmente tirar o PP para forçar um governo com o PSOE. Uma deriva à extrema moderação que não se pode separar do desencanto sofrido por 1 em cada 6 votantes do Podemos-IU em dezembro.

Certamente, foi um tapa na cara nas expectativas de Unidos Podemos que deixará marcas nas organizações compõem a coalizão. Tanto entre os principais sócios, como interior de cada formação. O setor de Íñigo Errejon, que foi o maior detrator da "unidade de esquerda", certamente tentará fazer Iglesias pagar a fatura pela derrota e por isso não podemos descartar que exista um trabalho para ter um acordo com as novas forças do regime, no caso se tratando do PSOE mas também incluindo Ciudadanos. Em Izquierda Unida é preciso ver como fica o setor encabeçado por Garzón, que conta com apoio de um setor importante oposto à aliança com Iglesias e o Podemos.

Está por ver-se se o descontentamento com o giro sem fim à direita por parte do novo reformismo desde 2014, permite que comecem a germinar novos processos de luta e organização, que em perspectiva possam tender a buscar uma alternativa política, com uma estratégia de ruptura com os partidos do regime, e por uma saída anticapitalista à crise.

A "festa da democracia" deste domingo, como disse cinicamente o Ministro do Interior, Fernandez Dias - quem foi denunciado por fabricar acusações a líderes da oposição - se conclui com um cenário de alta complexidade: uma crise do Regime de 78, que não encontra uma via estável para resolver-se, e com o principal projeto que se propõe uma restauração progressista do regime (Podemos) vendo sua hipótese de conquista eleitoral pela via de um programa moderado naufragar.

Um cenário difícil, em que se tentará fazer os trabalhadores e setores populares continuar pagando a crise e negar suas reivindicações democráticas e sociais que vem se expressando desde 2011, mas no qual se podem abrir possibilidades para reativar um processo de mobilização social para enfrentar os ataques e a luta por um processo constituinte realmente livre e soberano, para construir uma alternativa política anticapitalista e dos trabalhadores.




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