Gênero e sexualidade

25N - Dia internacional de combate à violência contra as mulheres

Campinas não é uma cidade segura para as mulheres

Grazieli Rodrigues

Professora da rede Estadual em Campinas

sábado 25 de novembro| Edição do dia

Os dados mais recentes de violência contra mulher em Campinas, registrados no boletim SISNOV – Sistema de Notificação de Violências, mas também os inúmeros e escandalosos casos registrados em 2017 e os tantos outros que se quer vieram à público, apontam não só uma crescente onda de violência contra mulher, como também nos levam a uma constatação: Campinas não é uma cidade segura para as mulheres.

“71,3% das vítimas de violência são mulheres e meninas”

Até o primeiro semestre de 2016, data mais recentes de pesquisas, o Boletim SISNOV apontava o registro de 814 casos de violências registrados em todos os equipamentos públicos da cidade, onde 71,3% das vítimas de violência eram mulheres e meninas. Isso sem considerar os inúmeros casos não denunciados (a pesquisa se limita aos números de “pessoas que de alguma maneira foram atendidas e identificadas pela rede municipal de cuidados”), onde a vida das vítimas são ameaçadas e as mulheres vivem um verdadeiro cárcere dentro de seus próprios lares, convivendo diariamente com a violência física, sexual e psicológica, ainda mais numa cidade do tamanho de Campinas com tantas periferias e lugares esquecidos, onde falta de tudo, de saneamento à segurança aos moradores, quiçá podemos esperar que se valham os direitos da população feminina, muito pelo contrário, frequentemente faz-se justiça com as próprias mãos ainda mais quando as “culpadas” são as mulheres.

“Quanto ao local das ocorrências, predominam a residência em parte devido ao forte enfoque em violência doméstica” (SISNOV Campinas, 2015).

Mais de 70% das situações de violência contra a mulher acontecem no seu local de residência, e mais da metade delas (54,4%) estão relacionadas à violência física, notificadas por recorrência na seguinte ordem: física, tentativa de suicídio (não contraditoriamente se refletirmos toda a miséria de vida a que são submetidas as mulheres), sexual e psicológica Inclusive, o autor mais frequente das violências nas situações que foram denunciadas são os cônjuges, incluindo Esposo/Companheiro e Ex-cônjuge, acusados em 37,8% das notificações. Logo, fica evidente que o Lar e a engessada Família que a bancada conservadora de Campinas defende e parece querer relegar às mulheres, como um fardo e não uma opção, também não são lugares seguros para elas.

Quando olhamos especificamente para a violência sexual, vemos que o estupro ocupa o rancking dos registros. São 85% das vítimas as mulheres, e de 358 casos de violência sexual registrados em 2015, escandalosamente 249 são por estupro – topo do rancking, seguidos de assédio sexual (69), exploração sexual (30) e pornografia infantil (10). Em quase 60% dos casos o autor possuía alguma relação com a vítima.

Quando a pesquisa foi entregue, no primeiro semestre de 2016, os dados mostravam 2015 como o ano de maior violência e 2016 já começara com números que apontavam para mesma realidade ou uma superação dela. Não só se desenhava uma realidade permeada de mais violência contra as mulheres, como ela de fato se deu. Não nos esquecemos que 2017 foi iniciado com uma chacina feminicida que na noite de réveillon fez vítima Isamara Filier e mais oito mulheres da sua família, como denunciamos aqui. Seguida de outros tantos casos absurdos, chegando em agosto desse ano ao número de 24 registros de homicídios de mulheres na cidade, só em 2017. Sendo destes, 12 motivados puramente pelo ódio do autor.

“(...) é mais que urgente fazermos emergir da união desses setores as mais fortes fileiras de luta independente contra tudo isso que tão bem nos oprime, explora e tira nossas vidas cotidianamente”

Não só não esqueceremos os nomes dessas mulheres, como achamos que é fundamental lutar em memória delas, para que suas histórias não se repitam e pela vida de todas mulheres nessa sociedade onde são parcos e “frágeis” os nossos direitos, e os rotulo frágeis pois estão em constante ataque, como recentemente com a PEC 181 que tentava fazer retroceder o direito ao aborto mesmo em caso de violência sexual e anencefalia do feto. E tantos outros que se deram ainda no Governo do PT, mesmo com uma mulher, Dilma Roussef, no poder, e se aprofundam agora no governo do Temer golpista.

Se exigimos do Estado um plano nacional de emergência contra a violência às mulheres como anunciamos hoje, também sabemos que dele vem grande parte das mazelas colocadas sob a vida das mulheres, como o trabalho precário que se expressa através da terceirização que no Brasil já tem rosto de mulher, negra e por vezes migrante e que agora com a Reforma Trabalhista passará a ser uma realidade para o conjunto da classe trabalhadora que por sua vez é de maioria negra; a criminalização do aborto que tira de nossas mãos o direito ao nossos corpos e gera todos os dias mortes por aborto clandestino e não-seguro, sem ignorar que têm majoritariamente uma cor as mulheres que morrem na clandestinidade e essa cor é preta, pois são frequentemente brancas as mulheres que podem pagar pelo aborto em clínicas e por consequência não morrer; além de aberrações como o Projeto Escola sem Partido que vimos serem aprovados em tantas Câmaras dos Vereadores desse país, como a de Campinas, que veta nas escolas, entre outras coisas, o debate de gênero que ao analisarmos esses dados se mostra ainda mais urgente de ser feito, afinal a vida das mulheres correm perigo numa sociedade onde se fortalece o machismo em tais proporções.

Lutemos então – como lutamos por nenhuma a menos após o femicídio de Isamara, contra o PL 5069 de Cunha, contra a PEC 181 e todos os outros ataques contra os quais nos organizamos e tomamos as ruas em diversas cidades e capitais – por todos os direitos que possam ter as mulheres dentro dessa ordem que é capitalista, mas sem entretanto nos iludirmos de que é de dentro dela que virá nossa emancipação, seja pelo fortalecimento de políticas que em última instância são punitivistas e que tem como alvo o povo pobre já encarcerado ao montes e só fazem fortalecer o judiciário que já mostrou diversas vezes sua face mais racista e burguesa, ou paliativas, como as DDM’S - Delegacias de Defesa das Mulheres, parte do aparato policial e repressivo do Estado capitalista e que são pintadas como saídas à violência contra a mulher e na verdade se mostram verdadeiros equipamentos de assédio e silenciamento às vozes das mulheres que se levantam, sem se quer proteger nenhuma delas, se fosse diferente a história das mulheres não teria sido escrita de tantas Isamaras, Claudias, Elisas e Mayaras.

Se são mulheres as mais vulneráveis, ao lados de setores oprimidos como são os negros e LGBTs, junto ao conjunto da classe trabalhadora que sofre todos os dias com o ódio da burguesia, a invisibilidade imposta pelos governos e com a profunda exploração capitalista, é mais que urgente fazermos emergir da união desses setores as mais fortes fileiras de luta independente contra tudo isso que tão bem nos oprime, explora e tira nossas vidas cotidianamente.

E por isso convidamos tod@s a conhecerem o Grupo de mulheres Pão e Rosas, que está em Campinas, em São Paulo, em Marília, em Franca, no Rio de Janeiro, em Minas e no Rio Grande no Norte, assim como ser parte dessa luta tão urgente contra o machismo e o capitalismo.

Referências:

Boletim SISNOV - Sistema de Notificação de Violências em Campinas. Disponível em: http://sisnov.campinas.sp.gov.br/pdf/bol_sisnov_10.pdf




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