Economia

CRISE ECONÔMICA NO BRASIL

2015: pior ano para os salários desde 2004 e como isto se relaciona com a FIESP querer mais ajuste

O DIEESE apurou que metade das negociações salariais conseguiram reajustes acima da inflação em 2015, um percentual muito abaixo dos 90% que vinham se mantendo desde o início do boom de consumo.

quinta-feira 7 de abril de 2016| Edição do dia

Nesta quarta-feira o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) apresentou o resultado de 708 negociações salariais que ocorreram em várias partes do Brasil nos setores industriais, de comércio e serviços. No estudo não é apurado o impacto das negociações do setor público e agropecuária. No setor público diversas negociações ficaram abaixo da inflação também. Dentre as categorias analisadas pelo DIEESE 52% dos reajustes ficaram acima da inflação, 29,9% foram iguais a inflação e 18,1% ficaram abaixo.

No ano de 2014 o resultado dessas negociações salariais foram de 90,2% acima da inflação, 7,3% iguais ao INPC e só 2,4% ficaram abaixo desse índice. O INPC (Índice Nacional de Preços) é uma medida geral dos preços, não estando diretamente associado ao consumo de alguém com carteira assinada. Esse índice varia durante o ano (pois é o acumulado da mudança de preços de abril a abril, por exemplo), então o impacto em 2015 também foi diferente, pois a inflação aumentou no final do ano. Segundo o levantamento do DIEESE os reajustes do início de 2015 foram os que conseguiram maiores reajustes acima da inflação pois ela estava em 8%, já as negociações no final do ano não conseguiram sobrepor o INPC que passava de 10%, para além disso, mais da metade dos reajustes acima do INPC ficaram com ganhos reais entre 0,1% e 1%, ou seja, com pouco impacto no consumo.

O que impactou nas negociações do ponto de vista da economia?

Segundo o DIEESE foram “a inflação e o aumento do desemprego, além da recessão econômica” que fizeram os salários subirem menos. Realmente o maior nível de preços e um maior número de desempregados, além da desaceleração da economia podem afetar os salários, mas esse levantamento foi todo feito na iniciativa privada, onde entra uma peça fundamental, o lucro.

O DIEESE intencionalmente não debate a parcela fundamental dos interesses de qualquer patronal, que tenha lucro, e numa crise a corrida pelo lucro se acirra – é o que os patrões e governos chamam de “apertar o cinto”, mas nunca deles mesmos. Para aumentar os lucros existem várias manobras, uma delas é o aumento dos preços, que no Brasil se deram principalmente nos preços controlados pelo governo petista, seja na energia elétrica, na água e nos combustíveis. A inflação é um problema crônico no Brasil e sempre se mostrou um mecanismo de concentração de renda poderoso.

Além da inflação o desemprego em si afeta os salários tanto na negociação (os patrões falam: se tiver aumento eu demito!) quanto para criar sub-emprego com salários menores, e a própria redução no crescimento da economia foi um freio criado pelos patrões e governos para “apertar o cinto” dos trabalhadores. É por isso que desde o ano passado vem sendo muito importante a resistência às demissões e cortes de direitos trabalhistas e de orçamento para saúde e educação, pois com os cortes na educação e saúde e cortes sociais e demissões abre-se caminho para privatização, novos empregos mais precários e uma queda maior dos salários.

O que impactou nesta perda de salários do ponto de vista da luta dos trabalhadores

O mesmo documento mostra como um dos setores que mais contribuiu a este recorde negativo foi a indústria, que passou de um patamar de 84% dos acordos acima da inflação em 2014 para somente 45% em 2015. Isto é reflexo da situação de crise neste setor, mas também do papel da Força Sindical que tem apoiado o impeachment através de seu dirigente histórico o Paulinho da Força (Solidariedade) mas também da CUT e CTB que apoiam o governo Dilma em negociar acordos que previam perdas de salário, com o PPE. Até mesmo categorias tradicionais e organizadas como petroleiros, em meio a maior greve desde 1995, tiveram acordos salariais inferiores à inflação em 2015 graças a atuação das direções dos sindicatos desta categoria que organizaram a saída da greve enquanto está ainda tinha força. Com esta “mãozinha” dos sindicatos para garantir que as patronais, sobretudo da indústria consigam descarregar nas costas da classe trabalhadora a crise, para que possam às custas dos salários e poder aquisitivo da classe trabalhadora recompor seus lucros que a FIESP sentiu-se animada a “ir por mais”. Defender o golpe institucional para tentar impor um governo mais forte para seus ajustes.

Quantos rios de tinta na imprensa sindical são gastos com a denúncia dos ajustes, e defesa de “seu governo”. Com este resultado visível na pesquisa do DIEESE, mas também na vida de cada trabalhador ao ir ao supermercado mostra como não erguer uma luta séria contra os ajustes ajuda as patronais e o governo a querem mais e mais ajustes. Para dar resposta à crise política, mas também a estes ataques que passam não só pelas demissões, mas também pelas perdas dos salários frente à inflação, é necessário exigir que os grandes sindicatos, sobretudo os da indústria onde esta crise é mais aguda, organizem um plano de luta contra o impeachment mas também que rompam sua subserviência a “seu” governo para organizar as reivindicações da classe trabalhadora lutando em defesa dos empregos e salários.




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