Sociedade

MARIELLE FRANCO

2 anos sem justiça a Marielle: por que depois de tanto tempo a investigação não andou?

Já fazem 2 anos do assassinato de Marielle Franco sem respostas e nem justiça. Enquanto isso, investigadores insistem na bizarra tese de um caso isolado sem mandantes para se eximirem do fracasso das investigações.

Carolina Cacau

Foi candidata a vereadora do MRT em 2016, é estudante da UERJ e professora da rede estadual.

sábado 14 de março| Edição do dia

Imagem: Proyecto/archivo “Altar Mujeres SXXI"

Ao longo desses dois anos de uma longa espera por respostas, o caso investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro já rodou por diversas versões, todas elas controversas. Em setembro de 2018, Monica, companheira de Marielle já afirmava o descaso das investigações: “Denunciei o descaso do governo brasileiro na ausência de justiça frente à execução política de Marielle. Também solicitei apoio internacional, para uma investigação imparcial, e sigo afirmando que as autoridades brasileiras estarão com as mãos sujas de sangue até que respondam quem matou e quem mandou matar minha companheira Marielle Franco”.

Nos 6 primeiros meses de investigação, em meio ao decreto de Intervenção Federal no Rio de Janeiro, nenhuma resposta se ouvia. Aventava-se a possibilidade do vereador Marcello Siciliano (PHS) ser o mandante do crime mas sem nada concreto que indicasse esse caminho. Meses depois, a própria investigação admitiu que vinha seguindo pistas falsas, por meses a fio. Nesse contexto, em outubro de 2018, Raquel Dodge, fez uma tentativa mal sucedida de federalizar as investigações. O assassinato que chocou o mundo inteiro seguiu na impunidade e em meio a uma guerra de versões.

Ronie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, apontados pela própria polícia como milicianos e matadores profissionais conhecidos, foram acusados pela polícia depois de um ano do assassinato brutal de Marielle. O Delegado Giniton Lages, responsável pela investigação, classificou como “crime de ódio”, e que o acusado Ronnie Lessa teria uma "obsessão por personalidades que militam na esquerda política", sendo capaz de "resolver suas diferenças políticas com violência".

A mesma versão é sustentada pelos investigadores hoje, quando a morte da Marielle faz dois anos. Segundo policiais e promotores, acreditam que Lessa era um "lobo solitário". Uma versão bizarra que aprofunda o cinismo da linha anterior, que simplesmente ignora o forte armamento armazenado pelos suspeitos, a parceria com Élcio, e mais de um milhão em suas contas. Não foi crime de ódio, mas um crime político e exigimos saber quem são os responsáveis.

Uma polêmica mal explicada tomou conta dos noticiários com os registros da portaria do condomínio de Bolsonaro e de Ronnie Lessa, um dos suspeitos do assassinato monstruoso de Marielle, mostraria que Élcio, outro suspeito do crime, entrou no condomínio no dia da morte da vereadora e de seu motorista afirmando que ia na casa do presidente. A última conclusão sobre isso é que quem atendeu o telefone não foi Bolsonaro, mas Ronnie Lessa.

No entanto, a ligação de Bolsonaro com os milicianos não para por aí, passa por Adriano da Nóbrega, recentemente assassinado pela polícia militar baiana. Adriano da Nóbrega estava na cadeia quando recebeu a medalha de Tiradentes de Flávio Bolsonaro no dia 9 de setembro de 2005 e sua esposa já trabalhou no gabinete do filho do presidente. O miliciano é citado na investigação do Ministério Público do Rio sobre a implicação de Fabrício Queiroz no esquema da "rachadinha". Essa morte implica no seguimento das investigações da morte de Marielle, mesmo não sendo ele diretamente envolvido no crime.

Há uma disputa em curso pela federalização da investigação de Marielle. Sergio Moro, antes contrário, passou a defender a medida após o envolvimento da família Bolsonaro. Depois, vendo a repercussão negativa de seu posicionamento, voltou atrás (publicamente). O julgamento será no dia 31. Essa medida foi refutada pela família e parlamentares do PSOL.

Nenhuma confiança no Estado para investigar a morte de Marielle

A incapacidade da polícia de investigar esse crime está demonstrada por todas as idas e vindas do caso, com o absurdo atraso de 2 anos sem nenhuma resposta sobre quem mandou matar Marielle. Nem a polícia, nem o judiciário, nem o governo estão levando a sério essa investigação, exatamente pela sua proximidade com as milicias, e suspeitas que pairam no mais alto escalão da política nacional.

Depois de 2 anos do assassinato de Marielle, urge a necessidade de que se realize para já investigação independente. O caminho para obrigar a que o Estado realmente investigue e puna os culpados é a mobilização. Mas ao mesmo tempo que devemos seguir exigindo que o Estado investigue e puna, não podemos deixar na mão somente deste Estado, que tem seus vínculos com o assassinato, o controle das investigações.

Devemos exigir que o Estado garanta recursos e todas as condições para que uma investigação independente possa trabalhar, disponibilizando materiais, arquivos para organismos de direitos humanos, peritos especialistas comprometidos com a causa, parlamentares do PSOL, representantes de organismos de direitos humanos, de sindicatos, de movimentos de favelas, etc, que sejam parte da investigação.

Precisamos exigir do estado que garanta todas as condições materiais, financeiras, e físicas para a realização plena e ampla da investigação independente, com acesso a todos os autos do processo para acompanhar e poder seguir todos os passos que a polícia dá, e também dar passos próprios que efetivamente deem solução para o caso e que se ache os culpados.

Hoje no mundo todo a Marielle está sendo relembrada, em vida lutava contra a violência policial, em defesa das mulheres e dos negros. É fundamental que façamos uma forte mobilização em torno desse caso para os envolvidos nesse assassinado brutal sejam encontrados e punidos. A impunidade nesse caso é parte de legitimar que o estado siga assassinando em massa a juventude negra e pobre nas favelas. Infelizmente, por conta do Corona Vírus, o ato que seria realizado hoje foi cancelado mas a família constituiu um Instituto Marielle Franco que está necessitando de apoio. Seguimos na luta por respostas. Somente a mobilização pode impor justiça a Marielle.




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