Política

ELEIÇÕES 2016

1milhão de votos da Zona Sul? Ou escondem a força que pode lutar contra Temer?

Em contraponto à crítica interessada da Globo e de alguns blogs petistas, demonstramos nesta análise dados reais da votação no Rio para pensar não somente o que foi a votação, mas mais importante o que fazer agora.

terça-feira 1º de novembro| Edição do dia

O mapa eleitoral do Rio está longe de traduzir-se em termos de classe do modo como a grande mídia e o petismo pintaram: o povo com Crivella, a classe média com Freixo. Ou em termos ainda mais grosseiros, a Zona Sul versus o restante da cidade. Na análise à seguir mostramos o verdadeiro resultado para pensar o que a partir deles é possível e mais que isso necessário desenvolver para que os mais de um milhão de votos no Rio sejam um ponto de apoio para a luta nacional contra os ajustes dos golpistas.

Se o voto de Freixo fosse dos "riquinhos" da Zona Sul, de uma "esquerda sem povo" como disse Jandira Feghali recentemente ao blog petista O Cafezinho, a discussão sobre o ponto de apoio para a luta contra a PEC 241, a reforma da previdência nem cabe. Seria colocar a luta operária nas mãos de outro sujeito social. Mas como mostraremos, o simplismo nos dados tem um uso interessado: pintar uma realidade que é funcional à miséria do possível: a esquerda é fraca no “povão”, logo tem que se contentar com o pouco que consegue.

Esta máxima é repetida pelo Globo e pela elite com o fim de semear uma ideologia neoliberal à la Thatcher que “não existe alternativa”, os trabalhadores devem aceitar os ajustes, etc. Para o petismo cabe, como sempre, sua justificativa do “pouquinho possível” enquanto os donos da dívida pública seguem com a maior parte do orçamento, os benefícios fiscais fazem os milionários donos de empresa não pagarem impostos, ou seja justificar o “pouco” dos trabalhadores com o “muito” dos empresários como se ambos interesses fossem conciliáveis.

Freixo não se separou desse “senso comum” da esquerda nacional. Sua campanha buscou mostrar aos empresários que não era radical e não fez dela um grande impulso para a luta nacional contra os ajustes de Temer, evitando “nacionalizar” a campanha como ele dizia. Mas uma parcela significativa de seus votantes não pensam assim necessariamente. Muito pelo contrário buscavam expressar sua insatisfação com os cortes que sofrem o funcionalismo estadual, a deplorável situação da saúde e educação na cidade, eram parte dos que iam à rua contra o golpe, são parte dos que ocuparam escolas (e voltam à ocupar). Ou seja, esse mais de um milhão de votos pode ser um ponto de apoio para a luta contra os ataques.

Afinal existe um milhão de moradores da Zona Sul e Tijuca?


mapa do G1 sugere que sim

A Zona Sul está bem longe de representar 40% dos votantes do Rio de Janeiro, ao contrário da grosseira manipulação dos dados através de um mapa colorido, seja no G1 ou nesta outra matéria do Blog O Cafezinho, para expressar qual candidatura foi majoritária em cada distrito. As cores escondem uma votação que na maioria dos locais esteve “pau-à-pau”. Mas antes de abandonarmos as cores e ir aos números, é preciso alertar os que são de fora do Rio, que mesmo em áreas da Zona Sul há grandes concentrações de trabalhadores e do povo pobre. Afinal, há favelas por todo o Rio, até mesmo Copacabana, escondida atrás dos prédios, tem uma parcela significativa de seus votantes que são moradores de morros.

Freixo ganha de Crivella em Botafogo, Urca, Humaitá, Leme, Copacabana, Gávea, Leblon, Cosme Velho, Laranjeiras, Jardim Botânico, Lagoa. Ipanema se divide em duas Zonas, em uma Freixo ganha, na outra é Crivella. Na região central, ganha na Cidade Nova, Santo Cristo, Catete, Glória, Lapa, Santa Teresa, Bairro de Fátima, Catumbi, sendo Centro e Santo Cristo divididos em duas zonas, Crivella ganhando nas outras duas. Mas é na Zona Norte onde os números são mais fortes: ganhou em Andaraí, Vila Isabel, Grajaú, Tijuca, Maracanã, Engenho de Dentro, Méier, Todos os Santos, Cachambi, Del Castilho, Engenho Novo, Maria das Graças, Rocha, São Francisco Xavier, Lins de Vasconcelos. Cachambi, Engenho Novo, Maria das Graças e Del Castilho também estão divididos em mais de uma Zona.

Botafogo, Humaitá, Cosme Velho, Laranjeiras, Urca, Jardim Botânico, Lagoa, Catete, Glória, Lapa, Grajaú, Vila Isabel, Maracanã, Tijuca, Freixo consegue mais de 60%, sendo a maior votação sua a de 67,01% em Cosme Velho e Laranjeiras, que se compararmos em números absolutos, são parcos 18.705 eleitores frente aos 55.037 Tijucanos e uma parte dos moradores do Maracanã que votaram em Freixo. Ou 101.975 se incluirmos o resto do Maracanã, Vila Isabel, Grajaú e Andaraí, uma massa de trabalhadores do funcionalismo público, e setores de classe média além de constar na área destes bairros o Morro dos Macacos, Formiga e várias outras favelas onde se encontram setores mais precários do proletariado dos serviços e comércio (o rio tem pouco proletariado industrial).

Não há que duvidar que os 170.577 votos daqueles bairros da Zona Norte aonde Freixo ganhou de Crivella são mais que os 129.366 votos nas áreas da Zona Sul aonde ele também ganha. Agora se contarmos apenas os votos das urnas aonde Freixo perdeu na Zona Norte, é que teremos a verdadeira proporção do Rio: 404.546, três vezes a quantidade de votos das urnas ganhas na Zona Sul! Isto acontece porque grande parte desta longa área da cidade, eminentemente mais pobre, onde, não obstante, também há classe média e burgueses (muito minoritariamente) Freixo emparelha Crivella que ganha por menos de 55% em Cascadura, Encantado, Quintino, Piedade, Bocaiúva, Água Santa, Brás de Pina, Olaria, Penha, Engenho de Dentro, Cordovil, Parada de Lucas, Vila da Penha, Vista Alegre, Vila Kosmos, Vicente de Carvalho, Fundão, Galeão, Jardim Guanabara, Portuguesa, Tubiacanga, Tomás Coelho, Abolição, Pilares. Traduzindo, o mapa oculta que Freixo perdeu mas teve muito expressivos 45% dos votos em bairros pobres, proletários, como a maioria dos listados acima, que incluem, entre outras coisas, os chamados “complexo do Alemão”, da “Penha” e o Morro do Dendê.

As áreas em que Crivella teve um pouco mais de 70%, ficam na Zona Oeste: Bangu, Senador Camará, Guaratiba, Sepetiba, Santa Cruz, Nova Sepetiba, Pedra de Guaratiba, Campo Grande, Senador Vasconcelos; e no extremo Norte do município, beirando a Baixada: Deodoro, Anchieta, Parque Anchieta, Ricardo Albuquerque, Costa Barros, Pavuna, Acari, Irajá. Ou seja nestas regiões onde há um peso maior das milícias, dos evangélicos de políticos que a mídia volta e meia fala que constituem “currais eleitorais”, Crivella ganhou mas mesmo assim expressivos 30% votaram de outro modo.

Dos números ao que fazer agora...

Essa polêmica, iniciada em torno de números e bairros tem outro objetivo: se houve mais de um milhão de votantes, em sua maioria funcionalismo público, jovens, com grande peso de setores onde predomina a classe média (Tijuca) mas também obteve expressivo 49% em locais tão precários e moradia de trabalhadores como a Maré, esse um milhão de votos poderia ser um ponto de apoio para desenvolver uma grande luta contra a PEC 241, a reforma do ensino médio, o “Escola sem Partido” e tantos outros ataques que atravessam o plano federal e chegam ao plano municipal.

A polêmica dos números diz respeito a uma imagem que se tem do Rio, e que os próprios votantes tem do seu voto e suas perspectivas atuais. Cair na imagem vendida pelo Globo e pelos blogs ligados ao petismo que polemizamos acima significa aceitar a prostração, resumir nossa atividade política às urnas de pouco em pouco, aceitar que é necessário “governar para todos”, ser uma “oposição responsável” como Freixo afirmou recentemente.

Essa é perspectiva que o PT educou e moldou gerações. É possível e necessário desenvolver outra perspectiva. Como disse Carolina Cacau, colunista deste Esquerda Diário “Devemos batalhar pra fazer do Rio, que foi um contraponto nacional ao fortalecimento da direita, um grande impulso na resistência a todos ataques dos golpistas e da direita. É com essa perspectiva que nós do MRT e do Esquerda Diário participamos sem nenhum sectarismo desse movimento, batalhando por um programa anticapitalista, confiando que os trabalhadores e jovens podem avançar nesta perspectiva e fazer desses votos uma força contra Crivella, Pezão e Temer. Esse movimento deve começar por cercar de solidariedade as mais de mil ocupações de escolas e universidades em todo o pais, apoiar as greves que começaram a acontecer nas universidades de todo país contra a PEC 241 e outras medidas de Temer, e todas as demais lutas que estão em curso contra os ataques da direita e da patronal. Exigimos que a CUT, CTB e os sindicatos dirigidos pelo PT rompam com sua trégua com Temer e coloquem suas forças a serviço dessas batalhas para que possam ser verdadeiramente massivas e vencer".




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