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TRIBUNA ABERTA

1964 – O Brasil entre armas e livros: Uma análise crítica

quarta-feira 17 de abril| Edição do dia

Recentemente o Brasil Paralelo lançou mais um filme com o objetivo direto de disputar a leitura histórica de processos e lutas decisivas para a atual configuração do Brasil (e do mundo) hoje. O documentário "1964 Brasil entre armas e livros" é parte do atual avanço do revisionismo histórico perpetrado pela extrema direita, consolidada no poder de Estado pela eleição (que resultou de nítido processo ilegítimo de golpes sucessivos) de Jair Bolsonaro como presidente do país, após a disputa eleitoral do ano passado, que vem se perpetuando no cenário de crise institucional e econômica pelo qual o Brasil enfrenta desde pelo menos as manifestações de rua de 2013, como parte singular do desmantelamento da crença majoritária na democracia representativa global, que teve início visível após o colapso econômico mundial de 2008 com a falência do Lehman Brothers nos Estados Unidos, e a consequente queda da bolsa de valores das principais potências planetárias. As crises financeiras, afirma David Harvey em O Enigma do Capital, “servem para racionalizar as irracionalidades do capitalismo.” Importante ressaltar aqui o contexto do momento da referida crise. Diz Harvey:

“No início de 2009, o modelo de industrialização baseado em exportações, que gerou um crescimento tão espetacular no Leste e Sudeste da Ásia, contraía-se a uma taxa alarmante (muitos países como Taiwan, China, Coreia do Sul e Japão viram suas exportações caírem em 20% ou mais em apenas dois meses). O comércio global internacional caiu em um terço em poucos meses, criando tensões nas economias majoritariamente exportadoras, como a da Alemanha e a do Brasil. Produtores de matérias-primas, que andavam em alta no verão de 2008, de repente depararam com uma queda de preços que trouxe sérias dificuldades para países produtores de petróleo, como a Rússia e a Venezuela, assim como os Estados do Golfo. O desemprego começou a aumentar a uma taxa alarmante. Cerca de 20 milhões de pessoas perderam subitamente seus empregos na China, e relatos perturbadores de agitação social vieram à tona. Nos Estados Unidos, o número de desempregados aumentou em mais de 5 milhões em poucos meses (de novo, fortemente concentrado em comunidades afro-americanas e hispânicas). Na Espanha, a taxa de desemprego saltou para mais de 17%. Na primavera de 2009, o Fundo Monetário Internacional estimava que mais de 50 trilhões de dólares em valores de ativos (quase o mesmo valor da produção total de um ano de bens e serviços no mundo) haviam sido destruídos. A Federal Reserve estimou em 11 trilhões de dólares a perda de valores de ativos das famílias dos EUA apenas em 2008.”

Todo o conjunto das lutas que emergiram no pós-2008 estão intimamente ligadas à crise estrutural do capital, neste caso permanentemente vinculado à especulação do capital financeiro, portanto, ligado a interesses privados. Não à toa, a reação da ultra-direita começa a ganhar corpo neste momento aumentando as tensões sociais na Grécia primeiramente. Na verdade, o fenômeno da reação burguesa (que tem importante marco nas movimentações políticas na Ucrânia) é mundial; o que logo em seguida veio a desembocar na mais pura violência fascista como resposta a crise, responsabilizando fundamentalmente a esquerda e os trabalhadores e não o capital e todo o seu conjunto sócio-metabólico como força propulsora da degenerescência humana. Pois bem, ainda sob o governo petista supostamente capaz de proporcionar algum tipo de bem estar à população, a crise obviamente não deixaria de atingir o Brasil, que naquele momento estabelecia todo um conjunto de acordos internacionais, o que não evitaria o colapso futuro. E por que a crise é um fenômeno próprio do capitalismo? Ora, desde o início do período da modernidade que compreende o século XVII em diante, passando pelas revoluções burguesas e a industrialização, o capitalismo demonstra que sua sobrevivência está diretamente relacionada a capacidade de explorar a força de trabalho e os recursos naturais de forma desmedida e irresponsável, como forma de impulsionar mercados por meio de monopólios e concentração de riqueza, o que gera enormes desastres sociais, sobretudo, o aumento crescente da pobreza a níveis alarmantes. A grave crise econômica de 2008 por exemplo foi avaliada como ainda mais destrutiva que a crise de 1929.

O oportunismo da direita foi mais uma vez instrumentalizar as insatisfações na defesa de um suposto nacionalismo muito mais próximo dos interesses principalmente dos EUA (e de outras potências globais), o que corrobora a histórica subserviência de governos de orientação neoliberal que afirmam incessantemente compromisso moral com a sociedade, mas que na prática não dão conta de resolver nem 1% das questões que eles mesmos colocam. As Jornadas de Junho ao passo que iniciou importante movimento de massas perdeu toda sua importância política pela ausência de um programa e organização que desse conta do desafio social colocado, que naquele momento surgiu a partir do aumento das passagens de ônibus, barcas, etc. Tal derretimento das bases que há muito mantinham relativamente equilibradas ao redor do mundo forças espelhadas e pouco transformadoras do modo de fazer e propor políticas, encarnadas numa falsa dicotomia entre esquerda x direita que pouco se diferenciavam enquanto forças políticas inseridas na máquina burocrática estatal, fez emergir no primeiro momento um vácuo em que forças até então marginais às disputas tradicionais de poder neste início de século 21 puderam se auto-afirmar como alternativas que traziam em seus programas partidários uma ruptura com o já considerado antigo modelo de oposições pariadas.

Se na Espanha o Podemos encarnava como face mais visível um posicionamento mais à esquerda, surgido das ocupações de jovens de praças como em Madrid e Barcelona no ano de 2011, contra o programa econômico do Estado Espanhol governado então pelos "socialistas" sob a presidência de Jose Luiz Rodriguez Zapatero, que visava apertar os gastos populares para salvar os bancos da bancarrota financeira, encarnando a égide de renovação e do novo já que sua base era formada por jovens contestadores da dicotomia entre PSOE e PP (que se alternam ainda hoje no comando do país europeu desde 1982), na Grécia a hecatombe social, econômica e política de 2010 fez surgir a Coalizão de esquerda radical, abreviado Syriza, que junto ao Podemos lançaram pelos ares do velho continente um odor de novos tempos para uma esquerda supostamente renovada e combativa, e que logo se sucederam na frustração e na imobilidade de uma proposta para além dos desmandos do capital em crise. Nas Américas tal vácuo de poder foi preenchida por atores de um espectro político oposto, o da direita e extrema direita. No Brasil, elencada nos métodos que levaram a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e na desarticulação dos movimentos sociais e de uma esquerda fragmentada, que não conseguiu criar uma alternativa ao desmantelamento do PT após a burocratização de suas lideranças de base, da troca de um programa de consciência de classe pela ascensão de classes pobres pelo consumo, a exposição constante do envolvimento de membros do partido em casos de corrupção, além da crise econômica iniciada no segundo governo de Dilma Rouseff e o golpe levado a cabo pelas forças reacionárias do congresso nacional, uma oposição anti intelectual e revisionista de extrema direita começou a criar notabilidade no cenário nacional, erigindo como possível a vitória do PSL de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. O professor Piero Leiner da Universidade Federal de São Carlos em entrevista ao El País coloca que a questão é :

“basicamente uma guerra no campo da informação e contrainformação, cujo objetivo é dissuadir o inimigo sem precisar levantar a espada. Isso é Sun-Tzu [estrategista militar chinês autor do livro A Arte da Guerra]. Isso é a base das PsyOps, ou operações psicológicas. O ponto todo é sempre desnortear o inimigo, deixando praticamente impossível para ele uma avaliação real sobre o tamanho, o posicionamento, a coesão e o estado de suas forças. Toda informação deve ser criptografada, e sempre é preciso adicionar uma quantidade de camadas de informação diante dos fatos de modo que as pessoas não saibam mais se estão olhando para as distrações ou para a mão que realiza a manobra. Com essa parafernália conceitual, me parece plausível que existe aplicação em qualquer campo. Por que a política ficaria isenta dela?”

Os tais métodos perpetrados pelos organizadores da campanha de Donald Trump ao governo estadunidense em 2017, se basearam não apenas em fomentar a pecha de anti-político, diante do vazio que a politica tradicional deixou após seu desaparecimento, e do qual empresários como Emmanuel Macron na França, e o Movimento 5 estrelas na Italia (autodefinido como um partido não político) e fundado por Beppe Grillo, um antigo comediante da televisão italiana, se aproveitaram para vencer as últimas eleições presidenciais em seus respectivos países, mas outro elemento central de toda a campanha eleitoral norte-americana foram o uso incansável das denominadas fake news. Desqualificar críticas de jornalistas e especialistas, criar falsas narrativas sobre os adversários políticos, inverter fatos históricos, se erigir como unica fonte confiável diante de uma conspiração secreta de personagens que modificam a realidade para manter seus privilégios diante do "novo" que está surgindo, foram alguns dos instrumentos utilizados por Donald Trump e sua trupe, sem que pra isso se precise provar com fontes bibliográficas seguras ou argumentação lógica clara a defesa que se faz de uma visão histórica e política paralela a já estabelecida.

Não à toa matéria do ano passado do jornalista Glenn Kesller para o jornal Washington Post, filtrando todas as declarações de Trump via Twitter, discursos na Casa branca e entrevistas, trouxeram a tona nada mais que 7.600 declarações falsas, totalizando 15 mentiras por dia só no ano de 2018, entre elas a de que 3 a 5 milhões de imigrantes ilegais votaram em Hillary Clinton, sua adversária no pleito de 2016, quando a própria justiça eleitoral divulgou nota comprovando que nenhum voto ilegal foi computado nas eleições, ou que a maioria dos mexicanos que cruzam a fronteira com os EUA são "traficantes de drogas, criminosos e estupradores", e também que o aquecimento global foi "um conceito criado por e para os chineses para que a manufatura norte americana não seja competitiva". Ou seja, dentro da definição de noticias falsas se esconde na verdade um discurso rascista, xenófobo, anti ambiental e fascista em sua essência, que depende de criar seu próprio público anti intelectual e anti científico, também condenador de imigrantes e das minorias, para se perpetuar como a verdade que basta a própria massa da extrema direita que surge das ruínas do colapso capitalista deste inicio de século, e que tem na criação de inimigos que não a própria lógica de expansão destrutiva do capital, a barbárie ativada pelos limites de sua expansão, o verdadeiro mal a ser erradicado pelas forças encarnadas no "cidadão de bem", fazendo revelar a face mais crua e radical do próprio capitalismo em sua história: o fascismo.

As eleições brasileiras do ano passado trouxeram à tona não apenas o recurso as fake news utilizado pela campanha de Bolsonaro como desqualificação torpe e bizarra do candidato petista Fernando Haddad, o acusando de ter sido responsável por distribuir para crianças de 6 anos um suposto "Kit gay" nas escolas de todo o país, enquanto ocupava o cargo de Ministro da Educação entre 2005 e 2012 durante o governo Lula, ou as menções a " mamadeira de piroca", além de acusar o TRE de fraudar as urnas eletrônicas em caso de derrota para o candidato paulista no segundo turno eleitoral, o verdadeiro mote por trás da utilização das noticias falsas usadas pelo conjunto ideológico e burocrático em torno de Bolsonaro não é aquele que se pautava pela disputa presidencial, e muito menos restringida a ataques pessoais escatológicos. É antes um projeto político amplo, que tem no revisionismo histórico a base de uma nova história da sociedade brasileira, aonde a conquista colonial e o massacre indígena pelos europeus, a escravidão, o racismo até hoje incrustado na sociedade tupiniquim, o patriarcalismo, os 21 anos de ditadura militar e outros momentos de conquista e silenciamento a fogo e sangue da história nacional, buscam apagar a verdadeira composição de classes da sociedade civil, tornando o desenvolvimento de uma nação brasileira à luta entre vencedores e vencidos abstratos, dando aos primeiros o mote de se constituírem como heróis nacionais, cujo recente documentário do "Brasil Paralelo" sobre o golpe militar de 1964, é ultima peça de propaganda ideológica que atravessa os valores e as concepções elitistas e reacionárias da nova extrema direita nacional. Logo no inicio, depoimentos de pessoas que tentaram exibir o documentário denunciam a intolerância da esquerda ao não aceitar a exibição em universidades, já que a tese central do documentário gira em torno da legitimidade do golpe civil-militar de 1964, o que gera coerente resistência da academia com relação à tal proposta que em última instância além de ser descolada da realidade concreta, incide contra a educação construindo teses falaciosas sobre a história. Professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense, Danieel Aarão Reis coloca a importância do estudo das causas da ditadura civil-militar:

“Não podemos virar as costas para o tempo da ditadura dizendo que a ditadura foi um tempo superado, um tempo que já não nos diz respeito, nossa democracia está consolidada. Porque muitas das instituições e das políticas empreendidas durante a ditadura continuam hoje. Pra ficar com a mais brutal: a tortura como política de Estado; largamente implementada durante a ditadura, mas não criada por ela, já vinha de antes, e continua hoje. Penso que ainda continua sendo um desafio estudarmos e compreendermos melhor o tempo da ditadura para compreender melhor não só a participação ativa de elites durante todo o tempo, mas também as relações complexas da sociedade com a ditadura. Nem toda sociedade resistiu à ditadura, nem toda a sociedade lutou contra a ditadura. Houve muita gente que apoiou. Houve muita gente que apoiou e depois desistiu de apoiar, depois voltou a apoiar, depois... houve zig zags, houve contradições. Isso tudo precisa ser estudado para que a gente possa entender (o que?) os fundamentos sociais e históricos da ditadura e do autoritarismo no Brasil.” Daniel Aarão Reis

A Revolução Russa, abordada no filme “1964 o Brasil entre Armas e Livros” fora colocada como o grande mal apontando para a compreensão de que o capitalismo continua sendo a única alternativa possível para o mundo e que regimes comunistas foram tão totalitários quanto regimes de caráter nazista como foi o caso da Alemanha de Hitler a partir de 1933. Essa perspectiva está em completa simetria com a linha ideológica e política do atual governo de Jair Bolsonaro onde tornou-se comum a defesa de tais teses pelos ministros de forma desavergonhada. Segundo a narrativa do filme,

“a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas é resultado do avanço da Rússia comunista e já dominava (no período pós II Guerra Mundial) quinze países. Assaltos a bancos e agitações nos quartéis do exército imperial russo. A revolução assassina brutalmente a família imperial Romanov para implementar uma ditadura que tinha Lênin como deus e Stálin e Trostky como papas vermelhos. Os soviéticos desenvolvem um plano para conquistar o mundo e implantar o comunismo e todos os países. O reino do terror vermelho se espalha nas décadas seguintes. Do outro lado do mundo, o ocidente. Os Estados Unidos da América construíram uma democracia liberal baseada na sociedade de mercado e dos valores cristãos.”

Essa grotesca comparação entre regimes de naturezas e processos históricos absolutamente distintos como foi o caso do fascismo e o comunismo é a base do revisionismo ultra-direitista, o que acaba gerando uma leitura falsa da história. Essa visão gera piedade com figuras históricas que oprimiram a Rússia como o Czar e sua família coerentemente eliminados por revolucionários russos. O socialismo, segundo Maurício Tragtenberg, “implica auto-organização, associação, auto-gestão operária.” E continua o autor: “Foi mérito da Associação Internacional dos Trabalhadores a afirmação do internacionalismo proletário como um valor positivo e a vinculação da luta pela libertação da classe trabalhadora da exploração econômica e da opressão política como sinônimo da libertação da humanidade.”

Mesmo hoje não havendo grande ameaça dos setores da esquerda é importante do ponto de vista da garantia da ordem burguesa construir a ideia de que o socialismo e o comunismo devem ser combatidos, pois sabemos que historicamente é esta a concepção revolucionária adotada por dezenas de países na construção de um modelo político e econômico revolucionário onde trabalhadores tomam a ofensiva na construção de um modelo contra-hegemônico, o que resulta em grave acirramento das tensões de classe. Com importante investimento de setores da direita, essa empresa de comunicação Brasil Paralelo nasce como um braço da reação burguesa frente a importantes movimentações sociais que se intensificaram desde junho de 2013 como colocado anteriormente. Olavo de Carvalho que já era satirizado no tempo do Orkut como um ser perturbado por ideias totalmente absurdas, transformou-se em referencial no campo das ideias defendendo e legitimando ações contra a esquerda, responsabilizando este setor pelas mazelas do mundo e não o capitalismo. Este filme é mais um investimento do revisionismo histórico grosseiro. É necessário ressaltar que a defesa do capitalismo e da economia de mercado sob forte orientação ultra-liberal é o principal objetivo deste filme.

O capitalismo é um sistema econômico em profunda mutação. Aliás, a sua principal característica é a flexibilidade e capacidade de adaptação. Mas, ele não se resume somente aos pressupostos econômicos. É claro que no período inicial de sua formação e desenvolvimento ainda não pressupunha a captura dos desejos. O capitalismo de hoje opera nas relações objetivas e subjetivas da sociedade moderna. Daí então, a dificuldade para se compreender e superar o sistema. Michel Löwy, em Diálogo com Benjamin, afirma que o capitalismo na verdade é uma religião, onde o mediador universal (o dinheiro), e só através dele, se permite o acesso ao grande elemento sagrado do capital: a mercadoria. A mercadoria, no capitalismo, possui dois atributos essenciais: valor de uso e valor de troca. É uma religião, portanto, não pode ser profanado. Expropriar uma mercadoria, ocupar espaços públicos é subverter a lógica de funcionamento do capital. Quem garante todo esse funcionamento no caso de profanação são os aparelhos de Estado, como a justiça burguesa e as forças coercivas.

Tem havido enorme esforço por parte dos liberais e ultra-liberais em suavizar determinadas leituras e entendimentos com a intenção de relativizar ou até mesmo (principalmente por parte dos ultra-liberais e consequentemente setores fascistas) inverter a compreensão do que vem a ser capitalismo, numa tentativa de legitimar o sistema em forte oposição às ideias de esquerda, produzindo uma leitura de que tal sistema é a última forma de sociabilidade humana, tema debatido à exaustão por István Mészáros em Para Além do Capital, obra notória do autor marxista.

Na verdade esses setores (tais como o Brasil Paralelo) querem manter as coisas como estão, na garantia da dominação burguesa e os privilégios das classes mais abastadas sem tocar em questões centrais como a distribuição equânime das riquezas pertinentes à sobrevivência das populações, riquezas estas produzidas por mãos operárias. A luta de classes nessa leitura perde o foco principal cabendo ao indivíduo os rumos da sociedade. Essa é uma tentativa de negar o motor da história e da problemática relação entre capital e trabalho principalmente no que diz respeito à exploração direta dos trabalhadores que são os que verdadeiramente sustentam o sistema e não o empresariado como afirmam os liberais. O fato é que estamos em guerra, ou melhor, o capital está em guerra contra os trabalhadores. Para que exista capitalismo, diz Afrânio Mendes, “faz-se necessária a concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de uma classe social e a presença de uma outra classe para a qual a venda da força de trabalho seja a única fonte de subsistência.” Propriedade privada e divisão social do trabalho e troca são, portanto, características do capitalismo.

O liberalismo é o pensamento econômico e político que estrutura toda a defesa do capital e busca a partir de explicações e análises descoladas da realidade as motivações e contradições sociais, o que por fim acaba por resultar numa contemplação sem qualquer movimento brusco no máximo estipulando reformas necessárias, diante da irracionalidade e avanço do capital que produz necessariamente a destruição generalizada. O capitalismo, segundo a visão liberal, não gera problemas. É como se os problemas já existissem naturalmente nas sociedades sem nada de fato o capital ter alterado. Os intelectuais liberais (ou pelo menos uma parte excessiva com raras exceções), por agir como defensores do sistema-mercado (o verdadeiro responsável pelo espírito belicoso das nações) precisam explicar as contradições do mundo, e para isso recorrem a diversos mecanismos retóricos (ou meramente escolásticos) sem tocar nos problemas objetivos concretos que gera miséria e os conflitos armados expondo os verdadeiros interesses em jogo. A retórica liberal estimula a guerra como se a maior ameaça fosse a liberdade comprometida pela dominação estrangeira, que inexoravelmente imputará à nação conquistada um regime estranho ao seu. Apesar do caráter do regime da nação dominada poder ser alterado, a sua natureza permanece o mesmo: a defesa intransigente do capitalismo como sistema sócio-econômico intocável obedecendo às potências centrais.

O campo da comunicação, portanto é de fundamental importância na defesa de tais ideias construindo a expressão de uma dissidência que canaliza insatisfações inclusive com lastro histórico redirecionado a seus interesses privados. No entanto, a política institucional burguesa não é capaz de dar qualquer resposta às necessidades reais dos que sofrem. A garantia e o uso indiscriminado do uso da repressão com baixas diárias de civis inocentes é o resultado do empenho generalizado da força como forma incabível de legitimar as políticas atuais de estado que na verdade respondem a um projeto global do capital como verdadeira força hegemônica e não a esquerda, como artificialmente a direita busca construir. O Estado continua sendo burguês e os interesses continuam igualmente respondendo aos interesses diretos da classe dominante. A repressão se mostra como epicentro do Estado burguês; mas ela sustenta-se até um determinado momento. Se um grande esforço popular não for feito desde já, a tendência é aceitação generalizada a partir do ódio do projeto ultra-liberal de Bolsonaro. Este é o momento que a economia está se redesenhando para acelerar processos que favorecem as próprias demandas da classe burguesa.

Não é, então, uma visão sobre o passado que vem sendo construído por filmes como os produzidos pela empresa de comunicação Brasil Paralelo, mas um projeto político para o presente muito bem arquitetado ainda que alicerçado em torpes afirmações por políticos mergulhados no revisionismo histórico. "A História tem sido manipulada por setores desta ‘nova direita’ com o objetivo principal de legitimar os seus projetos políticos. O que orienta a narrativa sobre o passado que esses grupos e indivíduos produzem não é o rigor acadêmico, nem os princípios da divulgação científica, da história pública ou do ensino de História, mas um projeto político”, afirma o historiador Bruno Leal, da Universidade de Brasília em entrevista a DW Brasil. A defesa de um passado mítico, branco, europeu e judaico cristão é o tripé de grupos de comunicação da extrema direita brasileira no qual o Brasil Paralelo se enquadra. No ano de 2017 o canal lançou o documentário ‘Brasil: A Última Cruzada”, com o intuito de oferecer uma visão unilateral sobre as origens da chamada "Civilização ocidental". Em seu primeiro capitulo, intitulado " A cruz e a espada" , destacam a cruzada cristã contra os Árabes exaltando os Templários na história européia em geral e na portuguesa em particular. Os realizadores enfatizam como a conquista portuguesa da América e a dominação colonial estabeleceram a herança europeia como a essência profunda do Brasil, vinculando a futura nação com o legado da Idade Média do velho continente. Ao retratar a Idade Média europeia como o verdadeiro passado da nação, a extrema-direita brasileira embranquece a história do país e minimiza a crueldade da prática política atual, especialmente a dominação de classe, e igualmente a persistência do racismo, misoginia, homofobia e intolerância religiosa. Como diz Paulo Pachá, especialista em História Medieval que analisou o interesse deste grupo por esse período no artigo Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia: "Em meio a esse contexto, o Brasil fornece um solo fértil para uma versão imaginada da Idade Média Europeia que a extrema-direita apresenta como branca, patriarcal e cristã. Ao enfatizar a relação entre o Brasil e Portugal, a extrema-direita apaga a importância dos povos indígenas e africanos na história do Brasil e ignora as suas contribuições sociais, culturais e econômicas. Nesse passado imaginário, Portugal não aparece como um poder colonial distante, mas como a “pátria mãe” que presenteou os brasileiros com uma cultura e uma língua europeias."

Seguindo essa mesma linha de argumentação, qual seja retratar os oprimidos de nossa história como os perpretadores de romper com a cultura nobre da elite brasileira, no documentário acerca do golpe de 1964 apresentam a tomada de poder pelos militares como uma atitude desesperada para salvaguardar a "democracia", ou seja, a manutenção de uma estrutura estatal que serve a burguesia nacional e internacional, verdadeiros ocupantes das mais altas esferas nacionais sobre a classe trabalhadora e as minorias, ante uma conspiração comunista de grupos da extrema esquerda, que vinha pouco a pouco tomando forma e se revelando nos discursos do então presidente João Goulart , e na ligação deste com elementos e organizações radicais que já se aproximavam de países pretensamente comunistas como a China, a Tchecoslovaquia e a própria União Soviética, além de Cuba, no contexto de acirramento da Guerra fria.

Este, outro elemento importante da construção narrativa do filme, mostrar os chamados "excessos" do regime militar como necessários em última instância, para salvaguardar a própria democracia dos excessos do "terror vermelho". O termo democracia então ganha um uso simplesmente instrumental, um sinônimo de poder do aparato de Estado para impor pela força sua legitimidade ao restante da população que é excluída tanto dos processos decisórios, quanto da composição de sua estrutura, quanto da capacidade de se organizar como oposição legal, transformando qualquer resistencia ao regime como um ato contrário a idéia suprema de democracia, definindo os opositores não instituídos no aparato estatal, como subversivos. A partir deste plano podemos expor mais uma falácia relatada no documentário do Brasil paralelo, a de que o golpe militar contou com um amplo apoio popular, sendo então não um regime puramente militar, mas sim civil militar. É claro aqui o ocultamento dos conflitos escritos no seio da sociedade, tornando não civis ou marginalizados os cidadãos que não se alinharam ideologicamente a ditadura por um lado, e por outro apagando a verdadeira natureza desta sociedade civil, que não se apresenta como um todo amorfo e abstrato, e sim como o palco em que se dá todos os recuos e avanços, os embates e as distenções, o conflito diário e constante da luta de classes.

O filme aqui analisado tem como função não só despolitizar temas importantes como as complexas tensões sociais de caráter classista que deram origem à ditadura civil-militar de 1964 e a própria natureza de tal regime. O filme tende a infantilizar os expectadores propondo uma visão sem lastro na realidade concreta material. A infantilização e subestimação da capacidade que o outro tem de pensar funciona como aspecto oportuno em despolitizar e colocar este outro em relação de inferioridade e subordinação àquele que detém algum tipo de poder seja cultural, político ou econômico. Nesse caso, a narrativa construída pelo filme afirma nas entrelinhas o desejo pela manutenção de tal relação. A partir dessa lógica, o poder é visto como bem privado, devendo ser exercido por e para poucos.

Infantilizar o discurso e até mesmo a prática dos outros é artifício por demais explorado pelas religiões, exércitos e patrões. As religiões (e nesse caso podemos tranquilamente falar do cristianismo e suas infinitas vertentes, mas vejam que não só essas) colocam o fiel como alguém que deve agradecer eternamente às benesses de um deus todo poderoso em troca de um lugar feito especialmente para os que bem se comportam na Terra. Deus admite tudo, menos ser questionado. Sendo assim, os fies são não só eternamente submissos intelectualmente. Devem manter-se e comportar-se como crianças obedientes. A recente declaração de Bolsonaro suplicando que jovens não tomem posições políticas, que deixem para os políticos profissionais e burocratas estatais o comando dos principais interesses que regem toda a sociedade, é importante medida de controle das populações, evitando embates frontais e colocando o governo como único responsável pelos rumos políticos. Enfim, as estruturas de poder hoje no Brasil são ocupadas por autoridades dispostas a alterar a história do país, visando a perpetuação de sua posição de dominação e exploração de classe a partir de um projeto econômico ultra-liberal, utilizando a falsificação e inversão dos fatos a partir de seu alicerçe midiático, do qual o Brasil paralelo aparece hoje como um dos principais sustentáculos. Lutar pela verdadeira história de classes no Brasil é lutar contra o presente fascista, e criar aternativas populares a um futuro de luta contra os desmandos e o avanço dos projetos rascistas, patriarcais, anti ambiental e anti científico da extrema direita que por ora nos governa.

Arthur Moura – Cineasta, graduado em História pela UFF, mestre em educação FFP-UERJ.
Lucas Santiago Mattos – Escritor e roteirista. Graduando em geografia pela UFF.

11/04/2019 Niterói, Rio de Janeiro.




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