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SEMANÁRIO

182 anos do aniversário de Machado de Assis, sua obra e atualidade como arma da crítica

Lara Zaramella

Pedro Pequini

Mathias Nery

Imagem: @monte_de_atomo

182 anos do aniversário de Machado de Assis, sua obra e atualidade como arma da crítica

Lara Zaramella

Pedro Pequini

Mathias Nery

"(...) eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor"
Machado de Assis

Gênio; negro; a frente do seu tempo; epilético; fundador da Academia Brasileira de Letras; para muitos, o maior escritor brasileiro, talvez do mundo, Machado de Assis, sem dúvidas, marcou profundamente a história da literatura mundial com suas palavras precisas. A 182 anos de seu aniversário, suas obras demonstram sua atualidade de análise, representação e indignação irônica às relações sociais brasileiras.

Dia 21 de junho completam-se 182 anos do nascimento de Machado de Assis, grande escritor, considerado por muitos críticos literários um dos maiores nomes da literatura brasileira. Seus contos e romances, produzidos a finais do século XIX descrevem e analisam a sociedade de então, com um interessante enfoque para o desenvolvimento de uma elite nacional e as raízes escravocratas que permeiam as relações sociais e políticas desde o processo de formação do Brasil República. Nesse momento da sua obra, Machado abandona uma escrita influenciada mais pelo romantismo e produz romances cujos narradores-personagem são homens da classe dominante. Essa mudança de ângulo reflete-se inclusive no nome de suas obras (Helena, Iaiá Garcia - Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro) e permite que ele faça uma crítica mais radical quanto à organização social, uma vez que demonstra profundamente as contradições daqueles que mantém a sociedade como ela é. Com sua linguagem reconhecidamente irônica e maliciosa, Machado de Assis consegue imprimir em seus textos as contradições e hipocrisias de então, que serviram de base e seguem existentes até os dias de hoje.

Passado quase dois séculos do nascimento de Machado, atualmente vivemos no Brasil de Bolsonaro e Mourão, do regime do golpe, em um momento marcado por uma profunda crise econômica e social agravada pela pandemia da Covid 19, e em um contexto em que se acentuam várias das contradições sociais, com o aumento do desemprego, da fome, da informalidade e precarização do trabalho que afetam de diferentes formas as classes sociais. Vemos como são os negros, e ainda mais as mulheres negras, a pagarem o preço mais alto por essa crise que é descarregada nas costas de toda a classe trabalhadora com tantos ajustes e reformas aprovadas pelo regime político pós golpe institucional. Todos estes fatores, somados aos ataques da extrema direita encabeçada pelo governo Bolsonaro à cultura e produção de pensamento crítico, resgatam a atualidade da obra machadiana e renovam a importância dos debates realizados sobre a literatura como ferramenta para a análise crítica no processo de transformação da sociedade.

Neste texto, nos deteremos em abordar a temática de gênero e raça presente em boa parte de suas obras, elegendo o conto “Pai Contra Mãe” como disparador e base para tratar da literatura de Machado.

Ainda hoje, mais de um século depois, podemos identificar essas relações de opressão de gênero, raça e exploração de uma classe sobre a outra no nosso dia a dia, na política nacional e internacional. É fundamental o movimento de extrair o que há de mais transformador e potente na arte, juntamente com o que há de sensível nela, sua capacidade de elaborar outros mundos a partir da realidade, que produz o potencial do leitor de imaginar outros mundos possíveis.

Leia Mais: Brasil: "A história de luta da classe trabalhadora brasileira começa com a luta negra por liberdade"

O conto “Pai Contra Mãe” faz parte do livro Relíquias da casa velha, obra publicada em 1906. Pelo título do livro, percebemos que o que vai ser tratado ali é a realidade de um país anterior, um Brasil escravagista. Também na sua advertência ao livro, Machado declara que "Uma casa tem muitas vezes as suas relíquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu...”. Nesse sentido, já deve ser remarcado que “Pai contra Mãe” é uma dessas “tristezas”, que retrata a amarga história brasileira. Todavia, pela sua profundidade, não podemos afirmar que em sua totalidade é algo “velho”, “que se passou” ou “antiquado”.

Torna-se atual quando olhamos para nossa realidade hoje e vemos ainda a barbárie, o desprezo dos capitalistas e governantes com a vida da população, como o negacionista Bolsonaro que leva o país a amargar mais de meio milhão de mortes pela Covid-19, ou quando é constatado que as mulheres perderam mais de 10 anos de direitos em 1 ano de pandemia. O nível de crise econômica foi aprofundado pela pandemia, jogando a massa trabalhadora à miséria e à precarização da vida de conjunto.

Breve resumo dos acontecimentos de “Pai contra Mãe”

Pelo título, o primeiro a se considerar é que o conto vai tratar de uma briga ou caso conjugal. Porém, apesar de ter um casal em cena (Cândido e Clara, brancos até no nome), as páginas adiante se debruçaram em um pai e uma mãe de famílias distintas, em condições de vida distintas, mas com dilemas semelhantes e que acabariam se cruzando no desenrolar do conto.

O personagem principal é Cândido Neves, Candinho (o “Pai”), que possui como “ofício” ser “polícia de escravos”, como define o crítico literário Alfredo Bosi. Em todo conto, vemos a história desde a perspectiva dele, um caçador de escravos fugitivos que acabou de casar e estava esperando um filho com Clara. Apesar de ter sido realizado o casório, a tia de Clara, Mônica, tem queixas sobre a instabilidade financeira de Neves, remarcando várias vezes essa posição. Outra personagem que tem centralidade na obra é Arminda, mulher negra que foge da situação de escrava, em busca de liberdade para poder dar à luz a criança que carrega no seu ventre. Apesar de aparecer só no final do conto, esta é a “Mãe” que está representada no título e que dá mais camadas para a obra.

Se no início do conto podemos ver uma análise quase sociológica das possibilidades de trabalho da época e as descrições de como eram utilizados materiais de tortura nos escravos, ou de como esses materiais eram colocados na frente das funilarias de maneira a naturalizar as atrocidades, no seu desfecho vemos ainda mais como o conto faz questão de demonstrar os elementos estruturantes da sociedade. Bosi afirma que a relação entre pai-filho e mãe-filho, são relações naturais que existiriam por si só, separada e independentemente. No entanto, o que está em jogo é a submissão do natural em relação ao social:

“A sobrevida das relações naturais (pai- filho, mãe-filho) dependerá da solução do impasse criado pelo ofício de Candinho, apanhador de escravos. Se ele deixar Arminda em liberdade, perderá a gratificação e o filho; se a capturar, quem corre perigo é o filho de Arminda. O conflito, que não existia absolutamente no regime mero parentesco, torna-se drama em sangue assumido pela segunda natureza, “tão legítima e imperiosa quanto a primeira”. (Bosi, A. p, 122)

Sem dinheiro, Candinho não conseguiria manter no seio da sua família o filho recém-nascido, para isso precisa da gratificação que é dada por apanhar os escravos fugidos. Assim, o encontro das personagens, não à toa, se dá na Rua da Ajuda, bem no momento em que Cândido está à caminho de deixar seu filho em uma espécie de orfanato (rua dos enjeitados), até que encontra Arminda, e passa a enxergar em sua captura a possibilidade de renda e, consequentemente, de manter seu filho por mais um tempo junto a ele. E assim é feito, captura Arminda e a leva para o “Senhor”, mesmo com ela implorando para que isso não ocorresse e que “se ele tivesse filho” lhe desse compaixão. Tudo isso foi ignorado e, priorizando sua liberdade, ele priva Arminda de tal direito e de ter seu filho, pois por desespero e pela brutalidade, ao ser entregue ao seu senhor, ela sofre um aborto.

Cândido, mesmo que vivesse em situação de precariedade e pudesse, assim, compreender a situação de Arminda, por estar dotado de uma ideologia racista fruto do capitalismo, se vê como superior aos negros e prefere se submeter ao “Senhor”, mesmo que não perceba, para garantir uma renda meramente temporária. O maior beneficiado e quem realmente “se dá bem” neste conto é o “Senhor”, que não possui nome, ao conseguir, não só manter uma camada de negros em condições desumanas, como também manter uma camada de brancos na pobreza e que realizam o trabalho sujo para ele, sustentando uma separação entre os primeiros e estes últimos por um falsa tese de superioridade racial, fundamentada pela Igreja Católica e pelas pseudociências eugenistas vigentes na época.

A arte enquanto arma da crítica

Esse elemento de fragmentação presente em “Pai Contra Mãe” demonstrado acima é um dos que justifica o racismo até hoje, e que também é sustentado pela ideologia machista aproveitada pelo milenial patriarcado que consiste em colocar os homens como superiores às mulheres. Se o conto já representava como essas opressões eram naturalizadas, hoje elas fazem com que a nossa luta se divida, e que os grandes empresários e os governos passem ainda mais ataques e precarizem ainda mais nossas vidas. A pandemia escancarou que são os setores mais oprimidos aqueles que mais sofrem com o aprofundamento da crise. As estatísticas da violência doméstica e policial não deixam esconder: é o agravamento do sofrimento das mulheres, dos negros e dos LGBTQIA+ frente à violência patriarcal e do Estado.

Nesse sentido, na atualidade em que o trabalho escravo não é regra, mas os trabalhos terceirizados, intermitentes e precários em geral são, sendo ocupados majoritariamente pelos setores mais oprimidos, se faz necessária a união desses aos trabalhadores efetivos enquanto classe. Se o racismo, machismo e lgbtfobia são utilizados para explorar ainda mais a nossa classe, fazendo os capitalistas lucrarem ainda mais, somente os trabalhadores unificados travando uma luta consciente contra esse sistema de conjunto podem nos libertar.

De 182 anos pra cá, desde o nascimento de Machado de Assis, foram muitos os momentos no Brasil e no mundo que os trabalhadores e setores oprimidos se levantaram, questionaram a desigualdade, a carestia de vida e trabalho, a suposta ordem e estruturação da sociedade e política. Nas últimas semanas, inclusive, com o 29M e o recém 19J, pudemos ver milhares de pessoas nas ruas demonstrando que neste momento consideram o governo mais letal do que o vírus, expressando sua indignação contra Bolsonaro, assim como sua força. É preciso organizar essa força, dos trabalhadores, da juventude, mulheres, negros, LGBTQIA+, é preciso organizar em cada local de trabalho e estudo, diferentemente do que vemos que as direções das centrais sindicais e entidades estudantis têm feito. Através de espaços de discussão e deliberação democrática, poderemos pensar os caminhos de transformação da sociedade, confiando em nossas forças e não em saídas e setores da institucionalidade, pertencentes ao regime político podre desde a raiz, desde os tempos de formação da república brasileira que Machado de Assis analisava como pano de fundo de suas obras.

Como parte deste caminho de transformação da sociedade, resgatamos esse conto machadiano fundamental para a literatura mundial, com objetivo de fomentar o uso da literatura como ferramenta no embate ideológico, abrindo nossos olhos para as contradições e mazelas da sociedade. Como já dizia Trotski:

“A arte, dizem-nos, não é um espelho, mas um martelo. Ela não reflete. Modela. Ensina-se o manejo do martelo com o auxílio do espelho, de uma película sensível que registra todas as etapas do movimento. A fotografia e a cinematografia, graças à sua força descritiva, tornam-se instrumentos poderosos de educação no domínio do trabalho. Se não se pode dispensar o espelho, mesmo para barbear-se, como construir ou reconstruir sua vida sem o espelho da literatura? Ninguém, certamente, pede à nova literatura que tenha a impassibilidade de um espelho. Quanto mais profunda a literatura, quanto mais imbuída do desejo de modelar a vida, tanto mais, dinâmica e significativamente, poderá pintar a vida”.

O próprio Trotski, autor deste trecho contido no livro Literatura e Revolução, reatualiza esta definição de arte enquanto martelo ao longo de sua vida, dado que a arte, até o final, não têm as capacidades materiais para moldar e transformar estruturalmente a sociedade, e sim, a classe trabalhadora organizada. O que sim a arte tem enquanto potencial e que devemos refletir e nos apropriar, é seu caráter ideológico. A ideologia é parte importante da construção da consciência, valores, opiniões e visões de mundo dos trabalhadores e da população em geral, sendo assim, a arte é uma ferramenta fundamental no processo de conscientização.

Em meio a tempos sombrios como o que vivemos, com as milhares de mortes diárias, o aumento da precarização do trabalho e das condições de vida, em um governo reacionário que não quer que tenhamos acesso à cultura e à arte livre, censurando e cerceando o pensamento crítico, queremos, neste aniversário de Machado de Assis, resgatar sua obra e arsenal, pois não só não abandonaremos o espelho da literatura, como a utilizaremos como arma no embate ideológico, disputando a consciência de milhares para construirmos um outro mundo digno de ser vivido.

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Lara Zaramella

Estudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Estudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Pedro Pequini

Mathias Nery

Estudante de Filosofia - USP
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