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15M: Estudantes da USP paralisarão contra os cortes na educação e a reforma da previdência

Nesta quinta-feira, 09, ocorreu a primeira assembleia geral dos estudantes da USP, após quatro meses do início do semestre. A assembleia contou com mais de 800 estudantes e, apesar da política burocrática da atual gestão do DCE, os estudantes votaram paralisar no dia 15 de maio.

sexta-feira 10 de maio| Edição do dia

Nesta quinta-feira, 09, ocorreu a primeira assembleia geral dos estudantes da Universidade de São Paulo, após quatro meses do início do semestre. Uma assembleia com mais de 800 estudantes onde estava clara a vontade de colocar de pé uma mobilização contra os ataques ao ensino público e a reforma da previdência, rumo à paralisação nacional da educação no dia 15 de maio, seguindo os exemplos dos estudantes das federais que nos últimos dias saíram aos milhares nas ruas.

Bolsonaro declarou guerra ao movimento estudantil anunciando um corte de mais de 30% nas universidades e institutos federais, defendeu o fim dos cursos de sociologia e filosofia, e o avanço do investimento privado na educação. Em resposta a esse grande ataque houve uma explosão de assembleias e atos em diversas universidades por todo país, provocando aquilo que seu governo temia desde o início, de um levante do movimento estudantil nacionalmente.

A assembleia, chamada apenas para o Campus Butantã, contou com mais de 20 informes diferentes dos Centros Acadêmicos, relatando a disposição de organização e mobilização, com assembleias de curso marcadas para debater a paralisação no dia 15 de maio, junto com os professores e outros setores da educação. A assembleia contou com a presença massiva de estudantes da FAU, FEA, Física, Poli, EEFE, FFLCH, ECA, FEUSP, entre outras unidades do campus Butantã. Mas também com delegações de estudantes da EACH e um importante bloco de estudantes da Saúde Pública, impulsionado pela gestão Katendê (Faísca e independentes) do CAER, que participaram da assembleia geral do Butantã visando articular a mobilização dos estudantes da saúde, tendo em visto o fato que o DCE ainda não convocou nenhuma assembleia para os estudantes do Campus das Clínicas. Outro informe muito importante foi que na mesma quinta-feira tinha sido realizada uma assembleia geral do Campus da USP de Ribeirão Preto que reuniu mais de 1000 estudantes e aprovou a paralisação no dia 15 de maio.

Os trabalhadores da USP também deram um informe logo no início, saudando a enorme assembleia estudantil e apresentando a proposta de mobilização unificada tirada no Comitê de Luta da Zona Oeste, propondo a realização de um trancaço do Portão 1 da USP logo pela manhã do dia 15, que pudesse unificar estudantes e trabalhadores de toda região Oeste, como fizemos nas paralisações nacionais de 2017 para barrar as reformas trabalhista e da previdência, buscando dialogar com a população que se as portas da universidade são fechadas todos os dias para eles, é por conta de políticas como a de Bolsonaro e Doria, e pelo filtro social do vestibular defendido pela reitoria e pelos membros do Conselho Universitário.

Logo após o informe a gestão Nossa Voz do DCE, composta pelo Balaio-PT, UJS e Levante Popular da Juventude, propôs que votássemos primeiro o indicativo de paralisação e a incorporação no ato do 15M. Foi aprovado por unanimidade que os estudantes da USP irão paralisar na próxima quarta-feira, se unificando com os professores e estudantes de todo o país. A segunda votação foi sobre a proposta de ato unificado com os trabalhadores logo pela manhã no portão 1 da Universidade. Essa proposta já expressou a primeira grande divergência, pois a gestão do DCE, juntamente com as juventudes Afronte, Rua, Juntos (todas do PSOL), UJC, Correnteza, entre outros, passaram a defender que não participássemos desse ato unificado, ignorando completamente o chamado realizado pelos trabalhadores de dentro e fora da USP.

Nós da Faísca, juntamente com estudantes independentes e o Território Livre, defendemos que era muito importante estar ao lado dos trabalhadores, construindo esse ato unificado logo pela manhã contra a reforma da previdência e os absurdos cortes na educação. Devemos buscar dialogar com a população sobre quem de fato fecha as portas da universidade e mostrando que, ao contrário do que Bolsonaro e a extrema direita declaram, nossa luta é para que a classe trabalhadora e o conjunto da população possam entrar e para que todo conhecimento que aqui é produzido esteja a serviço da população e não das empresas privadas como é atualmente. Essa proposta não passou, apesar de uma parte importante dos estudantes terem mostrado a vontade de atuar ao lado dos trabalhadores, unificando de fato nossa luta no próximo dia 15 de maio. Ficou marcada apenas uma concentração às 12h na USP, que caminhará até o metrô Butantã para se unificar com os estudantes da saúde nas Clínicas e seguir rumo ao ato unificado.

Depois dessa votação, ocorreu a grande manobra burocrática da assembleia. Esperando que aquele espaço pudesse ser um grande debate de ideias que nos armasse politicamente frente os grandes desafios do movimento estudantil, a gestão do DCE, com apoio escandaloso das juventudes do PSOL (Afronte, Juntos e Rua), do PCB e Correnteza (PCR) novamente se unificaram para impedir que os 23 estudantes inscritos para falas na assembleia pudessem ter o direito de debater democraticamente os rumos da nossa mobilização.

Com a desculpa da quantidade de falas e o tempo que seria gasto, uniram-se para barrar as falas das diversas forças e independentes que compunham o espaço e transformaram nossa assembleia em um grande debate sobre se as pessoas poderiam ou não colocar suas opiniões sobre como nos organizamos frente a tantos ataques, tempo que poderia ter sido usado para que pudesse ter tido o debate de ideias e opiniões.

É direito democrático básico que as assembleias tenham falas dos que estão presentes e que não seja só votação. Essa é a única forma de fazermos um debate qualitativo sobre os rumos da nossa organização coletiva, construindo de fato a unidade por meio da discussão política e não dos acordões que se dão entre correntes por fora da discussão com a base. Num momento em que ocorrem tantos ataques do governo contra o pensamento crítico e a pesquisa, que Maia articula como avançar na votação da reforma da previdência, que o judiciário autoritário avança em decidir politicamente várias questões do país, mantendo Lula preso arbitrariamente, é um completo absurdo tal medida de impedir que as diversas opiniões e linhas políticas tenham espaço numa assembleia estudantil.

Essa política burocrática, entretanto, não cai do céu. É fruto de uma concepção de movimento estudantil e estratégica geral. Para as correntes majoritárias da UNE, defender absurdos e impedir estudantes de falar é exemplo prático da “unidade pela democracia” que defendem. Não por acaso a UJS é a juventude do PCdoB, partido que apoiou Rodrigo Maia na votação da presidência da Câmara dos Deputados, o mesmo Rodrigo Maia que hoje declara que uma das possibilidades para se reverter o corte de 30% ao ensino superior é aprovando a reforma da previdência.

Não é por acaso que são esses mesmos setores que propuseram adiar o congresso da UNE para o início de julho, num período de férias ou fim de semestre, sendo a maioria dos dias úteis, impedindo a ampla maioria da juventude trabalhadora de participar. Em nossa visão o movimento estudantil pode ser ponta de lança da luta contra os cortes na educação e contra a reforma da previdência, portanto, não podemos aceitar a manobra de Maia e das burocracias da UNE de separarem essas duas lutas.

Frente ao nível de ataque da extrema direita e dos bolsonaristas, nossa estratégia não pode ser aceitar a chantagem de alguns setores da burguesia, como o judiciário golpista e Rodrigo Maia, que tentam submeter a revogação dos cortes a aprovação da reforma da previdência que vai nos obrigar a trabalhar até morrer.

Nossa luta precisa ter independência politica das reitorias e diretorias das faculdades. Se agora eles se colocam contra o absurdo corte de Bolsonaro e da CPI das estaduais paulistas é porque sabem como um ataque tão profundo coloca em risco toda universidade, inclusive seus próprios cargos. Mas não podemos esquecer que a reitoria e o Conselho Universitário sempre foram os primeiros a defender a abertura da universidade para a iniciativa privada. Se agora de fato querem defender a educação pública e não apenas seus próprios interesses corporativos, é necessário que apoiem todo tipo de mobilização que ocorrer dentro e fora da universidade, garantindo que ninguém será punido, permitindo a liberação das aulas e do trabalho quando necessário, e se colocando também contra a reforma da previdência que atacará todos nós.

Para que de fato possamos lutar contra os cortes orçamentários e por mais verbas para a educação pública, é necessário batalhar contra a Reforma da Previdência, que na prática irá afetar a todos nós, principalmente as mulheres negras. Frente a todo esse discurso mentiroso que faz o governo de que a Reforma é necessária para “salvar” o país, devemos questionar é o pagamento da dívida pública, uma bolsa- banqueiro que tem como único objetivo roubar cada vez mais dinheiro dos cofres públicos para entregar ao capital imperialista. O fim do pagamento desse roubo poderia liberaria verbas para a educação pública, e combinada com um plano de obras públicas gerarando emprego para toda população.

A extrema direita defende essa privatização do ensino, que só resulta num afastamento ainda maior da população ao conhecimento que aqui é produzido. Processo extremamente restrito graças ao filtro social e racial do vestibular e à abertura por parte das reitorias ao capital privado que financia as pesquisas para se apropriar do conhecimento e que fazem as grandes empresas lucrarem mais. É por isso que defendemos as cotas étnico-raciais, rumo ao fim do vestibular e a estatização dos monopólios do ensino privado. Defendendo que o conhecimento esteja de fato a serviço da população e dos trabalhadores acabando com essa velha estrutura de poder e lutando para que se imponha uma estatuinte livre e soberana que questione a existência da reitoria e coloque a gestão da universidade nas mãos dos estudantes, professores e funcionários proporcionalmente. 

Bolsonaro sabe do nosso potencial, ainda mais se nos organizamos juntos aos professores e demais trabalhadores, por isso coloca esse grande ataque, ao mesmo tempo em que avança com a votação da reforma da previdência. É necessário que o Movimento Estudantil se alie com os trabalhadores de todo o país e supere essas burocracias que hoje estão encasteladas nos sindicatos e entidades estudantis.
Em diversas assembleias pelo país, não somente nessa assembleia da USP, como relatado acima, essas direções demonstram ser um entrave para o movimento, como na assembleia dos estudantes da UFF, no Rio de Janeiro, onde defenderam contra a aprovação de paralisação dos estudantes, sendo que um dia depois um ato de milhares demostrou a enorme disposição de luta existente. Fazem isso porque temem que nossa organização fuja do seu controle, enquanto no parlamento, ou se aliam com os defensores da Reforma, ou defendem uma proposta “melhorada” como Tábata Amaral do PDT, o que na prática significa descarregar sobre as costas da população a crise capitalista. 

Na assembleia dos estudantes da USP, desta última quinta-feira, após as manobras políticas da atual gestão do DCE, apoiada pelas juventudes do PSOL (Rua, Afronte, Juntos), UJC e Correnteza, muitos estudantes se revoltaram com o fato de não poderem ter debatido o conteúdo político e tudo o que vem acontecendo no país, pensando os melhores caminhos e alternativas de luta.

Nós da Faísca compactuamos do mesmo sentimento de indignação de centenas de estudantes. Chamamos esses estudantes a seguirem travando conosco uma batalha contra a burocratização das nossas entidades e dos espaços de deliberação do ME, garantindo que possamos falar e nos organizar com total independência política da reitoria e dos governos, debatendo quais medidas podemos tomar para que no dia 15 a força dos estudantes possa se expressar de forma organizada com um só punho na luta contra a reforma da previdência e os cortes na educação.

Estaremos nas assembleias de curso defendendo o direito ao debate e liberdade de opiniões, pois essa é a única forma de construir uma verdadeira unidade do movimento estudantil, combatendo cada manobra burocrática das direções majoritárias e defendendo a necessidade dos estudantes retomarem as entidades estudantis em suas mãos, como ferramentas de luta e organização ao lado dos trabalhadores. Construiremos fortemente o dia 15 de maio, rumo a uma greve geral do dia 14 de junho, buscando fortalecer cada passo na auto-organização do movimento estudantil. Devemos confiar em nossas forças e nossa organização para barrar os cortes na educação e a reforma da previdência, nos aliando com os trabalhadores e parando o país contra os ataques de Bolsonaro. São eles ou nós, e o movimento estudantil pode estar na linha de frente para fazer com que sejam os capitalistas os que paguem pela crise.




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