Teoria

150 ANOS D'O CAPITAL

150 anos d’O Capital: a obra de Karl Marx para preparar a destruição do capitalismo

O jovem capitalismo vai se afirmar na Europa despertando enormes esperanças de progresso, de igualdade e de mobilidade social. Sua condição de um novo sistema de exploração da classe trabalhadora não aparece claro, e sim contraditoriamente mesclado com muita expectativa civilizatória, cultural, de progresso nas ciências e nas artes.

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 15 de setembro| Edição do dia

[Este artigo é composto da compilação de duas matérias anteriores publicadas por Gilson Dantas no Esquerda Diário sobre o temário d’O Capital de Karl Marx, esta e esta ]

O capitalismo despertou forças incríveis até ali ocultas nos meios de produção e no controle da natureza e promove a revolução cultural anti-feudal no sentido de que nada está pré-determinado, não é preciso depender da providência divina, a ciência é um novo poder. O nascente sistema promove grandes expectativas.

Por outro lado, no sistema feudal, era bem claro que os trabalhadores eram explorados, uma parte essencial do seu tempo semanal e de vida era claramente entregue ao senhor feudal, era bem evidente que classe produzia toda a riqueza e o quanto esta classe produtora era espoliada. As coisas eram explícitas como no modelo “casa grande e senzala”: os escravos da senzala sabem seu lugar e sua condição de escravo [e de produtores de toda a riqueza da qual vive o senhor de terras e seu grupo social].

Para nada o capitalismo aparece como uma sociedade corroída pela crise e pelo antagonismo social. Embora, em seu desenvolvimento irá acumulando contradições como miséria, opressão, polarização rico-pobre, as primeiras mobilizações sociais, o fato é que a eclosão do capitalismo trouxe esperança histórica. Os novos senhores, os empreendedores capitalistas se orgulham de dar “dar emprego” livremente, de terem libertado o trabalhador dos entraves feudais, o trabalhador agora livre não tem mais dono, enfim, a propaganda do novo sistema e o seu próprio funcionamento econômico encobria a exploração sob inúmeros discursos. E, diziam os ideólogos capitalistas: se você ainda não tem suficiente liberdade, de toda forma ela vem aí, este sistema cria liberdades, as expande, ele veio para construir o reino da liberdade; agora todos são iguais perante a lei. A exploração estava em marcha, já que a situação dos operários nas fábricas era um desastre humanitário, mas era apenas um problema de reformas sociais, de crescimento econômico, de mais “inclusão”, para usar um termo atual.

Aqui entra Marx.

E o seu livro-bomba, O Capital.

Seu ponto de partida é o de que a humanidade continua dividida em exploradores e explorados, gente que trabalha e gente que vive do trabalho alheio. Sua pergunta então será: o que há de específico no funcionamento da sociedade capitalista? Qual o mecanismo de espoliação da classe trabalhadora? Quais as leis que regem o funcionamento desta sociedade fundada no capital e no trabalho assalariado? Onde se oculta a exploração se o operário recebe pelo seu trabalho?

Marx se move da filosofia para a crítica da economia política motivado por sua sensibilidade social, pela preocupação com a emancipação humana, e em certo momento dos seus estudos – pela altura de 1844 – ele se assume comunista (Engels já se assumira àquela altura). Mas se ele tem consciência de que todos os modos de produção anteriores exploravam os trabalhadores, precisa apresentar agora uma visão de conjunto, profunda, sobre quais são as leis que movem o capitalismo, e que, ao final, ocultam, ao menos nas aparências, de onde vem o lucro, como é extraído o excedente, a riqueza.

Marx vai se dar conta, polemizando com as ideias do seu tempo, que um elemento-chave especifico do capitalismo é o de que os meios de produção são privados e que a força de trabalho se torna mercadoria. Isso Marx irá explicar muito bem. Mas ainda falta explicar como se dá a exploração. Por que, por exemplo, o burguês aplica um capital de 100 na produção e ao final conta com mercadorias que valem 130? Se tudo que usou na produção foi comprado a preço de custo, por que e de onde surgiu um novo valor?

Se o operário recebeu o que produziu, recebeu pelo que vale [salário] e se o valor dos insumos, das máquinas não cresce no processo produtivo, de onde vem esse novo valor? A economia política da época, a clássica, tampouco sabia explicar isso, estava atolada em uma dificuldade insanável de explicar o lucro além de confundirem trabalho com força de trabalho (os economistas clássicos, tipo A Smith e Ricardo, não conseguiam sequer resolver o problema do valor do salário, por exemplo; ficavam presos à ideia de que ele valia o mínimo vital fisiológico para o operário sobreviver; Marx irá mostrar que este é apenas o limite inferior, mas que o valor do salário flutua acima deste limite e tem um teto - quando o lucro desaparece - determinado por razões políticas, morais, de conjuntura econômica).

Na verdade, é importante levar em conta que, naqueles tempos, a economia política das origens do capitalismo vai deixando de ser uma ciência e no momento em que Marx se lança a elaborar sua crítica da economia política, a economia dominante se assumia, essencialmente, no papel de propaganda do capitalismo. “Querendo eternizar as relações sociais capitalistas, a economia política deixa de ser uma ciência e se transforma em ideologia, em apologética, isto é, em uma máquina para apresentar como verdadeiro para sempre aquilo que não é mais, neste caso, que a pretensa comunidade de interesses entre trabalho assalariado e capital, na tentativa de apresentar a ordem social capitalista como imutável” (Gill).

Mas os interesses são opostos: o burguês só compra a força de trabalho se o valor adicional, extra, gerado pelo operário, for maior que o valor da força de trabalho; estamos no terreno da mais valia (concepção e contribuição central de Marx para a economia e a ciência social).

Do ponto de vista do economista burguês, que só quer melhorar o capitalismo, o olhar está voltado para as aparências, para a esfera da circulação, do comércio. Ora, o comércio não cria riqueza. A produção sim. E, por sua vez, nem o capitalista industrial precisa cobrar a mais para lucrar: seu valor gasto já cresceu ao final do processo produtivo. Ele compra um monte de mercadorias – máquinas, insumos, energia, força de trabalho –, portanto as paga pelo seu valor, mas ao final surge um novo valor, e isso, como foi dito, apenas calculando qual foi o gasto total, pelo valor de custo de tudo que foi gasto...e eis que, ao final, há mais valor do que o inicial. Aqui há claramente um enigma, e O capital vai cuidar, cientificamente, de desvendá-lo.

O capital de Marx é escrito para desmontar esse castelo de ilusões a começar do mais bem guardado segredo do capitalismo, a mais valia. A mercadoria força de trabalho cria mais valor do que o que ela vale, o operário trabalha parte do tempo para produzir seu salário, mas outra parte do dia é gratuita, nesta parte ele trabalha apenas para o patrão. O novo valor surge no chão de fábrica, na produção, quando o patrão paga por 4 horas, mas recebe mais 3 ou 4 de graça. No total, o operário é quem cria toda a riqueza, a começar pelo seu salário e pelas mercadorias-extra que o patrão vai vender, o sobretrabalho.

A exploração é comum a todas as épocas da sociedade de classes. Mas apenas no capitalismo os meios de produção tomam a forma de capital. Entre os romanos a escravidão era a forma particular de exploração, no capitalismo a forma específica é a transformação da força de trabalho em mercadoria e a extração do excedente através da forma de mais valia, no chão de fábrica. Por esses caminhos Marx vai desmontando os segredos do capitalismo.

Portanto O capital não é escrito nem na perspectiva utópica e nem subjetiva; como explica Mandel: “Uma vez que Marx estava convencido de que a causa do proletariado tinha uma importância decisiva para o futuro da humanidade, queria criar para essa causa um fundamento sólido de verdade científica e não uma frágil plataforma de bravatas retóricas ou de boas intenções” (1968). Ou, em outras palavras: “É certo que Marx foi um revolucionário durante toda sua vida adulta a partir de 1843, mas considerava essencial basear o socialismo [comunismo] em um fundamento cientifico. A análise científica do modo capitalista de produção seria a pedra angular desse fundamento, mostrando como e por que o capitalismo foi criado, e, através do seu próprio desenvolvimento, a criação das condições econômicas, materiais e sociais prévias de uma sociedade de produtores associados” (Mandel, 1968).

Há outra ideia de O capital, de Marx, que hoje é ainda mais real ou mais chocante que no seu tempo. A ideia de que a tecnologia e a ciência não promovem a emancipação social se são dirigidas pelo capital; no capitalismo são condicionadas, desviadas, elitizadas, estão a serviço da dinheirama e não da genuína demanda social. A tecnologia alcançou patamares de ficção científica.

E com certeza muita gente continua acreditando que quanto mais progresso científico e técnico, mais a sociedade estará no conforto, no bem-estar, na felicidade e no desfrute geral daquele progresso. Só que evidentemente não é assim: os trabalhadores sabem que não.

Primeiro, que cada passo adiante na ciência e no seu uso público vem acompanhado de retrocessos, seja na poluição dos ares e águas, seja na devastação ambiental e da qualidade de vida [veja-se a qualidade de vida nas grandes metrópoles]. Múltiplos avanços na técnica permitem qualidade de vida, mas há que levar em conta os efeitos indesejáveis dessa mesma técnica [pense no sistema de transporte urbano, nas chaminés de fábricas etc], e também há a ampla exclusão. Há medicina de rico e de pobre: as grandes massas não desfrutam de cada avanço, estão sempre detrás, vários passos atrás daquilo que a técnica permite. As melhores técnicas de ensino não estão ao alcance das grandes massas pobres, por exemplo, basta ir numa escola de periferia e checar.

Em resumo, além de que a classe trabalhadora não desfruta dos melhores níveis de tecnologia muito menos é informada ou pode decidir sobre como impedir seus efeitos ambientalmente indesejáveis e muito menos podem escolher que tecnologia desejam [por exemplo, aparelhos de diagnóstico pelo calor são mais saudáveis do que aqueles que usam radiações ionizantes, mas dão menos lucro, daí não são desenvolvidos e disponibilizados].

Marx estava certo então: tecnologia e ciência nas mãos do capital não levam o mundo para um bom futuro.

Outra ideia muito forte e que é a perspectiva apontada pelo O capital é a de que os expropriadores devem ser expropriados. Os donos de fábricas, grandes empresas e bancos devem ser confiscados e essas firmas devem ser controladas pelos seus trabalhadores. Caso contrário o capitalismo, que nasceu espirrando sangue por todo lado, continuará massacrando e excluindo, fundado na exploração e na consequente exclusão social maciça.

As forças produtivas argumentava Marx, devem ser controladas pelos trabalhadores: se as fábricas continuarem nas mãos da patronal burguesa, esta nunca vai deixar de oferecer um emprego escravo, vai continuar pegando a parte do leão da riqueza produzida pelo empregado, e sujando e pondo em risco o planeta. Era a verdade para Marx e é a evidência do mundo de hoje. Se os expropriadores [os capitalistas] não forem expropriados, iremos para mais destruição de forças produtivas e mais devastação. Nisso estamos.

O desemprego era outra teoria essencial desenvolvida por Marx. E neste item ele chegou à conclusão de que o capitalismo não tem a menor chance de resolver o desemprego, não importa o governo ou as intenções de qualquer governo nos marcos do sistema.

É o que vemos: com crise ou sem crise, o exército industrial de desempregados é enorme e se na bonança ele é ligeiramente atenuado, na crise – é o que se vê agora no Brasil – ele volta com força total. Na Europa, na Inglaterra, o desemprego é de milhões, afora o sub-emprego e a exclusão social. Se os trabalhadores não tomarem a economia em suas mãos o desemprego não desaparece. E Trotski acrescenta: defendamos, nas nossas lutas, que trabalhem todos para que todos trabalhem menos horas; escala móvel de horas de trabalho. Mas aqui já estamos no campo das medidas proletárias para salvar a economia das mãos sujas do capitalismo.

Outra ideia de Marx é a de que o capitalismo tende à degeneração, à decomposição [sendo que somente pode ser derrubado se a classe trabalhadora levantar a força política que realize essa tarefa, através da revolução socialista, proletária].

Justamente, o que se vê de Marx para cá são as forças destrutivas do próprio sistema em franco desenvolvimento, cada vez mais em marcha acelerada. Dezenas e dezenas de milhões tiveram suas vidas ceifadas só nas guerras do século XX. A narco-economia, e agora os narco-Estados, a precarização do mundo do trabalho, a brutal poluição e queda da qualidade de vida nas cidades, as epidemias [do câncer às epidemias virais e tropicais etc], a epidemia de depressão, de obesidade, de corrupção, de violência urbana e rural, a tragédia dos migrantes na Europa, México, de acidentes do trabalho, de degradação das democracias e assim por diante e, finalmente, o risco de destruição da vida humana no planeta, são indicações de que o capitalismo vive em regime de decadência. E não - como diziam os contemporâneos de Marx e mesmo alguns intelectuais depois dele -, na condição de um sistema que evolui para o equilíbrio, para algum sossego ou progresso social e paz em patamares cada vez superiores. Em vez deste futuro, o que vem ocorrendo e segue em desenvolvimento é o que Marx imaginava: mais guerras, mais exclusão e um sistema, historicamente, em colapso econômico.

As crises econômicas como imanentes ao capitalismo, eis outra ideia forte de Marx: as crises não são acidentais, não são apenas “dores do parto” ou surtos febris que retornam aqui e ali, mas tendem a se agravar, e as contradições que as alimentam tendem a se acentuar e, com isso, se chega ao desenvolvimento, de crises catastróficas, de destruição de forças produtivas. E guerras.

Justamente a cada geração depois de O capital, sobretudo na I Guerra, com a conformação do imperialismo, grandes guerras tomaram forma e grandes crises de recessão econômica e depressão profunda também; nelas a economia mergulha na inflação, na estagnação, com travamento, convulsões, até que a burguesia consiga relação de forças políticas, para desfechar ataques sérios contra as conquistas sociais e trabalhistas [como faz o governo no Brasil neste momento] para garantir os privilégios dos ricos e, em seguida, com os ricos agora mais ricos, seguir funcionando.


Edição d’O Capital em francês

Capitalismo é crise recorrente. Isso é Marx. Na era do capitalismo maduro, que veio depois de Marx, o sistema abriu suas entranhas com graves crises [de graves impactos sociais] e guerras de poder de destruição sem precedentes [como a I e a II Guerra e outras] e essa era também se mostrou – acompanhando as ideias de Marx – grávida de revoluções e tivemos o triunfo da primeira revolução proletária, na Rússia.

O capitalismo agrava seu perfil e sua tara como sistema da barbárie institucionalizada. Basta pensar em como vivem as massas pobres na Ásia, Oriente Médio, na devastadora crise dos migrantes na Europa, no México, nas doenças da pobreza no Brasil [como a cruel epidemia de microcefalia, de dengue, e assim por diante]. Pense em um mundo que adoece cada vez mais e possui hospital, prevenção e assistência médica cada vez menos.

Portanto pense nisso tudo e você estará pensando nas ideias-força de O capital.
As explicações de Marx sobre como funciona a sociedade capitalista seguem de pé

O capitalismo avançou para sua fase madura, imperialista, decadente, o que cobra de nós a leitura de um marxismo mais atual, como o de Lenin [que escreveu o O imperialismo fase superior do capitalismo] ou de Trotski, [líder da revolução ao lado de Lenin e que explicou porque a Revolução Russa foi traída; e foi o grande autor do século XX que deixou o legado da estratégia para a vanguarda operária por de pé novas revoluções sob a bandeira do internacionalismo], ou Rosa Luxemburgo, nossa contemporânea na crítica aos aparatos burocráticos auto-proclamados socialistas e ao reformismo.


Edição alemã d’O Capital

Mas por trás do caos do capitalismo, da desigualdade e das crises, temos como base uma teoria que continua rondando tudo isso e oferece a base explicativa da crise do mundo moderno. E também aponta perspectiva de sua superação. Afinal de contas o marxismo, em uma versão curta, é a teoria da revolução proletária.

Ele passa longe da especulação ou da denúncia pela denúncia. O capital não foi escrito para economistas, foi feito para armar a vanguarda da classe trabalhadora para entender que o capitalismo só pode funcionar como uma máquina de escravidão mais ou menos disfarçada, e que se trata - se queremos um outro mundo -, com a nossa cara, de que temos que organizar politicamente o proletariado, como força independente, para por o velho mundo abaixo.

Em seus fundamentos, O capital segue atual. E os textos de Rosa Luxemburgo, de Lenin e de Trotski são a fonte inesgotável de inspiração para que possamos desenvolver as ideias-força de O capital em forma de revolução onde o proletariado moderno se levante para vencer.

Veja também: O Capital, 150 anos da maior obra de Karl Marx

Referências:

E Mandel, A formação do pensamento econômico de K Marx, 1968, Rio de Janeiro.
Louis Gill, Fundamentos y limites del capitalismo, 2002, Madrid.
E Mandel, O lugar do marxismo na história, 2001, São Paulo.




Tópicos relacionados

Capitalismo   /    León Trotsky   /    Marxismo   /    Teoria

Comentários

Comentar