Mundo Operário

PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO

12 pontos da brutalidade do trabalho precário e por que é tão necessário combatê-lo

Nesse dia de luta internacional de entregadores, veja 12 pontos detalhados sobre o que é o trabalho precário e por que é tão essencial combatê-lo.

quarta-feira 1º de julho| Edição do dia

1) Trabalho e vida se confundem no trabalho precário

Muitos dos entregadores tem uma jornada de trabalho que dura em média 12 horas por dia. Sem garantias, estes trabalhadores, muitas vezes têm que deixar de lado objetivos e relações pessoais para garantir o mínimo ao final do dia. Ao não ter uma jornada fixa, muitas vezes o trabalhador perde o direito de organizar até aonde vão os limites do trabalho e da sua vida privada.

2) Não há plano de saúde e nem seguro de vida

Uma situação que já era grave, se tornou ainda mais urgente em meio à pandemia: os aplicativos de entrega não oferecem plano de saúde para seus trabalhadores. Deixando a mercê pessoas que têm uma condição financeira muito instável caso adoeçam, e que estão expostos ao vírus pois estão em constante deslocamento e contato com outras pessoas. Alguns casos até foram parar na justiça, como o caso da empresa “Ifood” que se rejeitou a pagar um salário mínimo para os que haviam contraído corona no horário de trabalho. Ou seja, enquanto a burguesia tem condições de fazer isolamento social, uma parcela da classe trabalhadora não têm nem direito a garantia de atendimento médico.

3) Não tem auxílio alimentação

Os serviços de entrega são em grande parte voltados para entrega de restaurantes. O que representa uma grande ironia, visto que, não oferecem auxílio alimentação para os entregadores. No mês de junho, o Esquerda Diário publicou uma matéria na qual questionava “Você imagina a tortura que é andar com fome carregando comida nas costas?”, que é a situação de muitos desses trabalhadores, que não tem acesso a condições básicas de trabalho.

4) Salário menor e mais horas de trabalho

Segundo pesquisa da Aliança Bike, mais de 70% dos entregadores são negros, tem jornadas de 12 horas de trabalho com média salarial de 992 reais. Os patrões se aproveitam para ampliar a mais valia absoluta, com mais horas de trabalho e menor salário, obtendo maiores lucros sob as costas dos trabalhadores, por meio da tecnologia. Segundo a OIT, no final de 2009, 45,6% dos trabalhadores vivem na pobreza, com menos de um dólar por dia e cerca da metade ocupa empregos precários (ILO, 2010).

5) Imigração em massa e formação de um exército de reserva internacional

O trabalho precário aumentou a exploração, criando uma massa de desempregados. Esse verdadeiro exército de reserva de força de trabalho sobrante constitui hoje uma das maiores mazelas do capitalismo. São milhões de despossuídos que migram junto ao próprio capital. Como diz Marx, já antevendo esse fenômeno: “uma parte dela (da superpopulação flutuante, ou seja, dos dispensados pela indústria emigra, e na realidade, não faz mais do que seguir os passos do capital emigrante” (Marx, O Capital Livro 1, Pag.716, apud. Antunes, 2019)

6) Precarização chega com tudo até o centro do capitalismo

A precarização do trabalho não é mais uma característica das periferias do sistema capitalista, mas invade com tudo os países mais ricos da Europa, ainda que nesses casos, permanece uma diferenciação maior entre efetivos e precários (Antunes, 2019). Esse novo proletariado de serviços, com a uberização do trabalho, constitui uma das maiores fontes de extração de lucro, por meio das cadeias globais de valor, dos capitalistas hoje.

7) Proletarização de setores intelectualizados e profissionais liberais

O projeto dos capitalistas hoje é precarizar não só os entregadores, mas também os professores, médicos, advogados. Nem mesmo essas profissões, que contavam com prestígio social no momento anterior, da qual parte da classe média se apoia para se dizer superior, estão a salvos da voracidade do capitalismo hoje. Esses setores, na maioria das vezes intelectualizados, passam a oscilar, ter instabilidades e cada vez mais se proletarizarem (Antunes, 2019). Essa situação está no marco do interesse do capital financeiro em ampliar o modelo da uberização para toda a classe trabalhadora, o que não se dará sem conflitos com aqueles que rejeitam se tornarem ainda mais precários.

8) Classe trabalhadora nunca foi tão numerosa e tão diversa em suas ocupações

A classe trabalhadora nunca foi tão grande em toda a sua história. Com o fim da URSS e o bloco socialista nos anos 90, novos 1,47 Bilhões de novos trabalhadores entraram no mercado de trabalho capitalista, dobrando o número total de força de trabalho na época, que era de 1,46 Bi (Freeman, The Globalist, apud. Estratégia Socialista e Arte Militar, 2020, Iskra). Esse processo se deu junto a extrema divisão interna da classe trabalhadora, imposta conscientemente pelo capital para dominar e dividir, atacando a sindicalização, criando uma massa de subcontratados que contrasta com os efetivos. O desafio dos revolucionários nessa época é o de unificar ambos, todos vendem sua força de trabalho e compõe a mesma classe, que é internacional.

9) Os negros e as mulheres ocupam os postos de trabalho mais precários

O novo modelo de precarização do trabalho se aproveita das opressões as mulheres e aos negros para lucrar ainda mais. No Brasil, em 2017, eram 12,7 milhões de terceirizados, que recebem menos por um trabalho igual ao de efetivos. São as mulheres negras que ocupam a maioria dos cargos de terceirização no Brasil e também nos aplicativos. Assim como as empregadas domésticas são de maioria negra, também o novo proletariado de serviços é composto em sua maioria pelos setores mais oprimidos da sociedade.

10) Saúde mental dos trabalhadores é afetada pelas incertezas

A saúde mental é profundamente afetada pela precarização do trabalho. As incertezas, o assédio moral da chefia e a absoluta falta de garantias levam a que os trabalhadores apresentem quadros de depressão, estresse nervoso e adoecimento: “constatações epidemiológicas e clínicas apontam os riscos de hipertensão arterial e doença coronariana configurados pela pressão temporal em profissionais submetidos de forma continuada ao work-stress, entre outras patologias que atingem o organismo pela via psicossomática, nas quais o estresse continuado desempenha papel relevante (HALLQVIST et al., 1998, Apud, Rev. bras. saúde ocup. vol.35 no.122 São Paulo July/Dec. 2010)”.

11) Trabalhador paga os custos de produção e se endivida

No novo modelo de relações de trabalho, são os próprios trabalhadores, tratados como colaboradores ou como sócios da empresa, é que são obrigados a bancar os custos de produção e reprodução no trabalho. O trabalhador precisa injetar um capital inicial para começar a vender sua força de trabalho e muitas vezes se endivida para isso. O que a empresa cede também pode virar cobrança em alguns casos. No caso dos aplicativos de entrega de comida, são as bags, o combustível da moto/aluguel da bicicleta e o almoço. No caso do Uber, é o carro, o combustível e a manutenção, tudo isso se soma às taxas que os aplicativos tiram dos trabalhadores, que no caso da empresa citada chega a 25%. Com a pandemia, as taxas se tornaram ainda mais abusivas: “Hoje, na média, recebemos R$ 1 por quilômetro rodado. Precisa trabalhar muito. Antes, esse valor era de R$ 3 mais ou menos. Mas com a pandemia as coisas ficaram ainda piores. É praticamente trabalho escravo”, disse entregador ao InfoMoney.

12) Trabalhadores são tratados como colaboradores e Justiça à serviço do Capital aplaude

A 2ª Vara da Justiça Trabalhista de São Paulo decidiu em fevereiro de 2019 os entregadores seriam “trabalhadores autônomos” e “donos dos meios de produção”, por isso não haveria um vínculo empregatício entre iFood e seus subordinados. Junto a decisão da juíza Shirley Aparecida de Souza Lobo Escobar acumularam decisões do TST que seguem a mesma linha. A decisão da 5ª turma do TST não considerando os motoristas de aplicativos como empregados é uma dessas medidas que querem ausentar essas empresas de garantirem condições de trabalho.

Segundo a decisão do TST, a justiça brasileira, motorista não é trabalhador e Uber não é empresa de transportes. Segundo a decisão, a empresa é de exploração de plataforma tecnológica, em que os motoristas atuam como parceiros, numa economia compartilhada. A justiça que não é cega e está ao lado dos patrões utilizam esses termos mascaradores da realidade para validar a exploração.

Por que combater a precarização do trabalho?

A paralisação dos entregadores no dia de hoje demonstra a urgência de combater o trabalho precarizado. Milhares de entregadores saíram às ruas para exigir direitos e mais dignidade. Direitos estes, que as empresas insistem em ignorar e passar por cima, proporcionando rotinas de trabalho muito mais longas do que o que seria saudável, dinheiro insuficiente para todas as despesas, incluindo equipamentos que as empresas não oferecem, falta de acesso a alimentação e a saúde. Esses trabalhadores muitas vezes acabam se afundando tanto fisicamente quanto mentalmente, se afastando de suas famílias, tudo isso graças à empresas que não os dão as condições mais básicas de trabalho e fecham os olhos para o riscos que expõe seus trabalhadores.

Nós do Esquerda Diário batalhamos para que essa necessária luta por condições de trabalho precisa se somar a luta por Fora Bolsonaro e Mourão e para que a classe trabalhadora possa decidir seu destino, mediante uma assembleia constituinte livre e soberana imposta pela luta, isto só pode se dar pela união entre os efetivos e os precários.




Tópicos relacionados

Entregadores   /    precarização   /    Capitalismo   /    Trabalho Precário   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar