Internacional

APÓS 30 ANOS, A MARCHA DA POLÍCIA

12-O: o Estado Espanhol exibe sua força como uma ameaça contra a Catalunha

O desfile militar neste 12 de outubro, teve todo o respaldo da Coroa (da Monarquia Espanhola) e seu envolvimento bonapartista na crise catalã. É urgente uma saída alternativa dos trabalhadores às vacilações de Puigdemont.

quinta-feira 12 de outubro| Edição do dia

O desfile militar neste 12 de outubro, dia da « Hispanidade », converteu-se em um grande ato de respaldo à ofensiva espanholista contra a Catalunha, que, a partir da aplicação do artigo 155, se aprofunda num terreno cada vez mais bonapartista e autoritário.

Esta celebração sempre apresentou um caráter reacionário. Trata-se de uma exaltação da conquista de América e do imperialismo espanhol, mas este ano passou da comemoração simbólica e se converteu em um elemento a mais na guerra declarada contra o povo catalão pelo Regime de 1978.

3900 soldado, guardas civis e policiais, 78 aviões e 84 veículos desfilaram pelo Passeio da Castelhano de Madri sob o comando de Felipe VI, o Governo do PP e seus fiéis escudeiros do PSOE e Cs que ontem, dia 11, respaldaram a aplicação do artigo 155. O Estado espanhol mostra seu “músculo”, a força bruta que sem dúvidas será mobilizada para tratar de afogar o grande movimento pela independência na Catalunha.

A participação da Polícia Nacional no desfile pela primeira vez desde os anos 1980, está relacionada com o papel chave deste corpo na repressão do referendo do dia 1º de Outubro e sua implantação na Catalunha. Estas polícias nacionais, junto à Guarda Civil, são verdadeiras forças de ocupação reconhecidas assim pelo Regime de 1978. Elas desfilaram junto a contingentes militares que compõem as missões imperialistas espanholas no exterior.

Se ainda resta alguma dúvida, ontem (11) mesmo o Ministério da Defesa anunciou que estaria preparando uma possível reativação da operação “Cota de Malha” que suporia o envio de tropas a Catalunha para dar apoio às forças policiais.

Nem os dirigentes dos partidos pela soberania catalães, bascos e galegos, nem os representantes da Esquerda Unida, nem do Podemos, manifestaram-se a favor de participarem no ato. Surpreende que a prefeita de Madri, Manuela Carmena, que no ano passado não esteve presente, este ano tenha posado junto ao Rei e ao presidente do governo que estão alimentando um verdadeiro golpe autoritário contra as instituições o povo catalão.

A impressão do palco de autoridades e uma Avenida Castelhana militarizada ilustram o que Estado espanhol é capaz de colocar em ação para evitar que a vontade da maioria do povo catalão, expressa no dia 1, possa ser efetivada na forma de uma república independente. Por outro lado, as vacilações de Puigdemont que se evidenciaram em sua “república de 10 segundos”, ilustram que a saída do PDeCAT e do ERC (grupos políticos catalões) é impotente para enfrentá-la.

Nos próximos dias, não se pode descartar que o Governo central realize uma nova mudança para ceder em seu próprio plano para evitar que entre as segundas e as quintas o Conselho de Ministros e o Senado apliquem o artigo 155. Tampouco, que não respondam ao requerimento do governo central e que este seja executado. Ainda neste cenário de maior dureza e repressão, como estão se preparando o Junts pel Sí para poder enfrentar um Estado bunkerizado (“blindado”) que busca impor uma derrota que não deixará condições para que depois seja realizada uma reforma constitucional cosmética?

Se nesta semana, o Estado começar uma operação ofensiva de “rolo compressor” o Governo e as entidades pela soberania catalã não terão uma alternativa. Colocaram todas as suas fichas na mediação da comunidade internacional. Mas esta, começando pela União Europeia e a Comissão Europeia, deixaram claro que estão ao lado de Rajoy, Pedro Sánchez e Felipe VI.

As ilusões numa via eslovena (proclamação da independência, suspensão e reconhecimento internacional) esquece o processo da independência da Eslovênia. A República eslovena, parte da Federação Iugoslava, contava com sua própria força militar, Belgrado tinha então que concentrar esforços para evitar a independência da Croácia e as potências imperialista viam com simpatia o desmembramento territorial da Iugoslávia. Mesmo assim, a independência não foi conquistada ante de se passar por 10 dias de combates e 70 mortos.

Hoje, a Catalunha não apresenta nenhuma destas condições. A via burguesa, por meio do Parlament e de um Govern “desobedientes”, se choca com o muro do Regime de 1978, a guerra econômica dos grandes capitalistas e a Polícia de Forças Armadas que hoje mostraram sua força e ânimos exaltados nas ruas da capital Madri.

A via para poder conquistar uma república independente passa por desenvolver um grande processo de autorganização da classe trabalhadora e dos setores populares, e a partir destes organismos, tomar medidas elementares de defesa contra a repressão e em defesa do resultado do 1º de Outubro.

Esta é uma tarefa histórica que poderia tomar como eixo a esquerda independentista, rompendo de uma vez com o seguidismo à saída que é ditada pelo Palau da Generalitat (sede do governo catalão), promovendo a massificação dos comitês de defesa nos bairros, assembleias nos centros de estudo e trabalho, conformando em tais lugares comitês de defesa, coordenando-os em toda a Catalunha pela via da eleição de delegados revogáveis e com mandato...

O tradicional lema da esquerda independentista “lutar, criar, poder popular” tem agora mais atualidade do que nunca. A Generalitat e o Parlament se mostram impotentes diante da ofensiva estatal. Os trabalhadores e setores populares devemos levantar nosso próprio poder para derrotar esta ofensiva repressiva. A partir daí é preciso impulsionar a luta e a mobilização pela saída das tropas de ocupação, o rechaço o 155, toda medida que seja tomada para aplicá-lo contra a guerra econômica.

Como medida de luta imediata e urgente é necessário preparar uma nova greve geral, que a esquerda sindical volte a colocar-se a frente desta convocação e que exijamos das direções do CCOO e da UGT o fim de sua política traidora de se recusar a convocar qualquer medida de luta. Mas é necessário também, preparar medidas mais contundentes, com as greves e paralisações em setores estratégicos, como bancos, aeroportos, portos, centros de distribuição... assim como, medidas de controle operário que evitem a fuga de capitais, o fechamento de empresas ou a ocupação militar destas instalações.

Esta grande mobilização do povo catalão deve ser apoiada pela esquerda e a pela classe trabalhadora do restante do Estado. A terceira via das marchas de branco, que Iglesias, Garzón e as direções do CCOO e da UGT saudaram, se converteu numa situação de cobertura pela esquerda da ofensiva em curso. O rechaço do Podemos, Esquerda Unida (IU) e os “comunes” aos 155 é elementar, porém, insuficiente. Devem reconhecer a legitimidade do resultado do 1º de Outubro e o direito dos catalãos a conformarem sua própria república independente. Contra a ofensiva do Regime de 1978, abandonar toda ilusão na reforma deste mesmo regime pelas mãos do PSOE. Deveriam abandonar ainda, esta política seguidista e passar a convocar mobilizações contra o arcabouço institucional herdeiro da Ditadura, a Coroa e pela abertura de processos constituintes na Catalunha e no restante do Estado.

A única resposta possível para impor um verdadeiro processo constituinte livre e soberano na Catalunha, a partir do qual se possa proclamar a independência e discutir sem limites todos os problemas sociais e democráticos pendentes, é que esta ofensiva do bunker de 1978 seja derrotada por meio da mobilização e da autororgazanição dos trabalhadores e do povo catalão, em aliança com o restante do Estado. Por sua vez, este processo pode ser um catalizador para a retomada de uma luta comum em todo o Estado espanhol contra o Regime de 78.

Um processo como este, com a classe trabalhadora disputando e conquistando a hegemonia da luta democrática, poderá, ainda, colocar em xeque que tipo de república catalã independente deverá ser construída. A atual hegemonia burguesa vê como dado que esta república deverá ser capitalista, um decalque de múltiplas leis da monarquia constitucional de 1978. A classe trabalhadora a frente deste processo pode abrir caminho para a luta por uma república catalã socialista, na perspectiva de poder conquistar uma livre federação de repúblicas ibéricas em luta conjunta com os trabalhadores do restante do Estado.




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