Gênero e sexualidade

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

10 provas de que a USP não dá a mínima para a violência contra as mulheres

A reitoria da USP tem se aproveitado de forma oportunista da violência contra as mulheres para, de forma perversa, justificar um grande aumento da militarização do campus. Mas ao mesmo tempo não toma medidas elementares. Ao contrário, implementa um desmonte da universidade que atinge a segurança das mulheres de várias formas.

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato da USP.

terça-feira 1º de setembro de 2015| Edição do dia

1 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não estaria há anos parada escutando uma reivindicação tão elementar quanto a de uma boa iluminação em todo o campus, e não haveria vários trechos do campus conhecidos por serem escuros e isolados. A iluminação insuficiente que existe hoje não teria demorado 3 anos entre seu anúncio em 2011 e sua implementação em 2014. As licitações não teriam sido suspensas três vezes pelo TCE por constatação de favorecimento de empresas em um processo cujos valores são de dar inveja aos articuladores do esquema entre a Fusp e a Petrobrás – só a diferença em relação ao valor do contrato final era de R$22,5 milhões. E a avaliação dos resultados teria sido feita pela comunidade, e não pelo ex-prefeito do Campus José Sidnei Colombo Martini, que meses depois se afastou do cargo depois de ser denunciado por envolvimento no esquema de corrupção entre a Alston, da qual foi executivo, e o Metrô de SP.

2 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não teria desmontado e desativado o sistema de ônibus circulares gratuitos dentro da cidade universitária. Ao contrário de transferir, demitir e congelar a contratação dos trabalhadores, teria revitalizado e aumentado a frota e o serviço. Assim os ônibus seriam mais frequentes, e mais ainda: seriam acessíveis à chamada “comunidade externa” da USP, na qual a reitoria inclui os 5 mil trabalhadores terceirizados que atuam na USP, na sua grande maioria mulheres. Essas trabalhadoras são sempre invisíveis, e sequer são lembradas quando se pensa nas vítimas da violência. Mas como frequentemente sequer recebem VT das empresas, e chegam para o trabalho antes de amanhecer, ou saem depois de escurecer, fazem seu caminho até fora da USP sempre a pé, no escuro, expostas a todo tipo de assédio, inclusive dos policiais.

3 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não estaria desmontando justamente a prefeitura do campus e os serviços responsáveis pela manutenção do espaço. Não haveria uma enorme redução no quadro dos trabalhadores responsáveis pela poda da vegetação. Eles não estariam sendo substituídos por empresas terceirizadas, que lucram milhões empregando trabalho precário, com salários de miséria, realizando serviços sem condições reais de fiscalização e responsabilização.

4 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não estaria na iminência de transferir, como parte do desmonte da prefeitura do campus, todo o seu setor administrativo para os prédios dos Blocos K e L da administração central, que a reitoria havia prometido devolver ao seu propósito anterior: moradia estudantil. Ao contrário, haveria muito mais moradia estudantil, espalhada pelo campus, criando maior circulação pela universidade, e não concentração e isolamento. Até mais do que isso, haveria mais permanência estudantil, mais vagas, políticas de acesso, pois quanto mais fechada, deserta e elitista, menos segura é a universidade.

5 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não estaria desmontando a guarda universitária, não teria reduzido seu contingente no campus para 45 agentes – 25% do número já insuficiente de anos atrás -, e inclusive extinto completamente o contingente feminino, que já era totalmente insuficiente, e congelado as contratações de funcionários, que afetam também essa área. Essas medidas criaram minuciosamente as condições com que a reitoria agora tenta legitimar um salto na militarização. A ex-Superintendente de Prevenção e Proteção da USP, Profa. Ana Lucia Pastore - que, diga-se de passagem, não compartilha das posições mais firmes aprovadas pelas categorias de estudantes e trabalhadores - não teria sido exonerada do cargo por criticar esse desmonte da Guarda e apontar a necessidade de contratações, como ela mesma identifica. Não seriam ignoradas as propostas das entidades de estudantes e trabalhadores de formas de controle da Guarda pela comunidade, e de treinamento em direitos humanos e atendimento às mulheres (já que mesmo sobre a Guarda pesam denúncias de assédio, e casos de repressão ao movimento), que estavam sendo inclusive parcialmente incorporadas no projeto sob a gestão da ex-Superintendente.

6 – E a “gota d’água” para essa exoneração não seria, de novo segundo ela mesma, um questionamento sobre a falta de acesso até mesmo por parte da Guarda das informações sobre violência às Mulheres na Faculdade de Medicina. Se a administração da USP se preocupasse com a segurança das mulheres, todos esses abusos, trotes e estupros na Faculdade de Medicina não poderiam ter acontecido sob um clima de proteção e acobertamento, como mostrou a denúncia da própria ex-Superintendente. As denúncias sobre esses casos, e sobre tantos outros, mais ou menos conhecidos, encontrariam respostas, e não resistência, e não ganhariam repercussão somente quando instituições externas à universidade, sob forte pressão do movimento, começaram a agir. Zago não teria, em meio ao escândalo da Medicina, valorizado em sua declaração no Conselho Universitário a preocupação com o possível caráter de “ações inquisitoriais e purificadoras” das reações a essas denúncias. Enfim, os organismos das próprias mulheres, de direitos humanos, e dos estudantes e trabalhadores encontrariam espaço para agir, ao invés de repressão.

7 – Justamente nesse sentido, nunca veríamos um ato de mulheres, denunciando a violência contra as mulheres, ser ameaçado de criminalização, diga-se, utilizando as câmeras que foram instaladas com o argumento de proteger as mulheres, e que supostamente não serviriam para criminalizar a organização de estudantes e trabalhadores. Na última reunião do Conselho Universitário, o diretor da FEA não teria pedido a fala, em resposta às denúncias da representação de estudantes e funcionários sobre a violência contra as mulheres, para recriminar o mesmo ato denunciando a violência contra as mulheres, e não teria dito que “quem pede respeito deve agir com respeito”. É chocante a relação, implícita nessa frase, entre a violência contra as mulheres e os estupros que estavam sendo denunciados, de um lado, e pichações denunciando isso, de outro.

8 – Se a reitoria da USP se preocupasse com a segurança das mulheres, não haveria 45% de trabalhadores nos restaurantes, na sua maioria mulheres, com doenças ocupacionais, restrições ou afastamentos. Não seria essa a situação também em uma série de outros serviços, pois não haveria sobrecarga de trabalho, pois as contratações não estariam congeladas. Os trabalhadores não estariam sendo substituídos por terceirizados, na sua grande maioria mulheres, vítimas de 80% dos acidentes de trabalho fatais que não são uma realidade estranha à USP. Ao contrário de fechar as vagas nas creches, como está sendo feito, esse e outros direitos elementares seriam estendidos às trabalhadoras e trabalhadores terceirizados. De fato, se a reitoria estivesse preocupada com a segurança das mulheres, não haveria terceirização na USP.

9 – Se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não tomaria cada vez mais medidas para o fechamento do Campus, como a extinção dos circulares e a recente proibição de festas, e principalmente o aumento da PM, que trata os jovens da região como suspeitos. Ao contrário, a universidade estaria aberta à população, com atividades culturais e esportivas, cheia de gente e, como todo mundo sabe, mais segura do que um lugar deserto e, além disso, elitista e excludente.

10 – Para terminar por onde começamos, se a reitoria se preocupasse com a segurança das mulheres, não apresentaria como solução justamente o aumento da presença fixa da PM. Argumentam que a PM não serviria para reprimir a organização dos próprios estudantes e trabalhadores, e que seria um contingente fixo e “próximo à comunidade”, que “conheceria pessoalmente as pessoas”. Pois em uma das últimas manifestações foi esse contingente, já presente, que de fato conhecia muitos manifestantes pelo nome, que reprimiu estudantes e trabalhadores com tal brutalidade que gerou um grande número de denúncias e o afastamento de um policial. Seu alvo prioritário, não deve surpreender ninguém: as mulheres.

O problema da violência social em geral, e da violência contra as mulheres em particular, não é exclusividade da USP. Não há solução por fora de atacar suas origens mais profundas nas contradições sociais do próprio capitalismo. Mesmo todas as medidas de que falamos aqui não poderiam resolver completamente o problema. Mas são medidas elementares que administração da USP se recusa a tomar, enquanto usa a violência das mulheres como pretexto para aumentar a militarização, e aprofundar o desmonte da USP, que só agrava o problema.

*Bruno Gilga é representante dos trabalhadores no Conselho Universitário da USP.




Tópicos relacionados

Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar