Gênero e sexualidade

CULTURA DO ESTUPRO

1 em cada 3 brasileiros acreditam que a culpa do estupro é da vítima

“Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”. “Mulher que usa roupas provocativas não podem reclamar se for estuprada”. As assustadoras frases assustam ainda mais se acompanhadas da estatística de que 37% da população concorda com a primeira e 30% com a segunda. Sim, precisamos urgentemente falar todos os dias sobre a cultura do estupro e seus responsáveis.

Iaci Maria

Belo Horizonte

quarta-feira 21 de setembro| Edição do dia

Esses dados são da pesquisa feita pelo Instituto Datafolha com 3.625 pessoas em 217 cidades de todo o País entre 1 e 5 de agosto, que traz ainda outros dados alarmantes: 65% da população diz sentir medo de ser vítima de violência sexual, número que é de 90% entre as mulheres do Nordeste. O receio é maior entre os mais jovens, onde o porcentual médio é de 75%, decrescendo conforme aumenta a faixa etária. Isso no país onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e há acredita-se que apenas 10% dos casos de agressão sexual são denunciados.

A mesma pesquisa aborda também a avaliação das polícias e a dificuldade de atendimento: 50% discordam da afirmação de que policiais militares são bem preparados para atender vítimas de violência sexual, e 42% dizem não encontrar acolhimento nas delegacias.

Os dados aparecem, as responsabilidades se escondem

Essa pesquisa recém-divulgada expressa como a cultura do estupro está enraizada na sociedade. Mas quem são os responsáveis pela perpetuação dessa grotesca cultura? A violência contra a mulher é formada por uma longa teia de diversas opressões e o estupro, seguido do feminicídio, são o último elo dessa cadeia. São a expressão da invasão do corpo feminino, que converte as mulheres em propriedades privadas com as quais se acredita poder fazer o que bem entender e ainda julgá-las "merecedoras" da violência.

Essa violência começa com os assédios em casa, na rua, na escola, trabalho, mas é também a mesma que tira da mulher o direito de decidir o que fazer com seu próprio corpo, o que se expressa também nas milhares de mulheres mostras devido a ilegalidade do aborto. Mas opressão não paira no ar, ela tem agentes. A mídia é um desses, com sua ganância capitalista e suas propagandas que objetificam os corpos femininos e criam padrões de beleza que servem para criar mulheres infelizes e dispostas comprar os milhares de produtos propagandeados na TV, revistas e outdoors. Isso além de sempre mostrar as mulheres ocupando os lugares mais subordinados, e até mesmo reforçando sempre o esteriótipo de mulher "correta" como sendo a "bela, recatada e do lar".

Os jornais também possuem sua responsabilidade, quando não apenas colocam em dúvida as denúncias das mulheres, apresentado-as como "supostas" violências, como também invisibilizam os movimentos de luta das mulheres, negando mostrar em suas páginas que as mulheres estão tomando as ruas contra a violência e por seus direitos.

Entre as instituições responsáveis pela perpetuação da violência, justiça burguesa também tem sua responsabilidade. A própria pesquisa mostra que metade da população acredita que a polícia não é capaz de responder a casos de violência. Mais que isso, a justiça cumpre sempre o cruel papel de revitimizar a vítima, fazendo-a retomar por diversas vezes a violência vivida, questionando os fatos, constrangendo e coagindo a vítima, e mantendo tantos agressores impunes. As Igrejas, instituições que lucram sobre a fé de milhões de pessoas, também buscam impor sua crença sobre a vida das mulheres, impedindo que elas possam decidir sobre suas vidas. Em nome da “vida”, milhares de mulheres morrem por abortos clandestinos, e a Igreja condena mais o aborto do que as mortes. Tudo isso mostra que a cultura do estupro está a serviço também de perpetuar esta ordem capitalista de exploração e opressão.

Os governos também são responsáveis. Essa pesquisa feita há quase dois meses e divulgada agora acontece exatamente em meio ao processo de consolidação do golpe institucional, que oficializa um governo formado quase totalmente por homens, que tem em sua base aliada o fascista Jair Bolsonaro - réu por incitação ao estupro - e que é composto por ministros que recebem estupradores como Alexandre Frota para opinar sobre a educação. Avançam projetos como o "Escola Sem Partido", que quer impedir a discussão de gênero em sala de aula, debate esse que serve justamente para educar as crianças sobre a necessidade de se respeitar as mulheres e seus corpos, assim como acabar com a perpetuação da cultura do estupro. Mas mesmo antes do golpe, os 13 anos de PT pouco avançaram nas políticas para as mulheres: a lei Maria da Penha completou 10 anos mês passado, mas os números de mulheres violentadas segue aumentada e o aborto segue ilegal, levando milhares de mulheres à morte.

Basta de estupros, a culpa nunca é da vítima!

O fim da opressão às mulheres não virá deste Estado burguês, com confiança no governo, no congresso e na justiça. Para acabar com a violência às mulheres é preciso lutar pra que essa bandeira seja tomada também pelos homens e pelo conjunto da população que se coloca contra essa barbárie, defendendo fortemente que a culpa nunca é da vítima. É preciso lutar por um plano de emergência para assistir as vítimas de violência, que deve começar por subsídios garantidos pelo estado (com licenças do trabalho), todo acesso à saúde pública e de qualidade, e a criação de casas abrigo transitórias para as mulheres em situação da violência com planos de obras públicas, tudo baseado na criação de impostos progressivos à grandes fortunas.

As mulheres, trabalhadoras e trabalhadores, a juventude, precisam se organizar para lutar contra cada forma brutal de opressão e por cada direito mais elementar que nos é negado. Contra a cultura do estupro, contra o governo golpista e machista e todas as formas de opressão, devemos direcionar nossa luta contra nossos verdadeiros inimigos: o estado capitalista.




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